Os portugueses puseram-se a raspar e a sonhar. Já não para sítio longe e
bom, como o fizeram Constâncio, Guterres, Barroso e Gaspar, que nos deixaram
para trás abandonando-nos à nossa sorte, afogados em dívidas. Agora, mais
mulheres do que homens pelo que vejo, procuram outra sorte no meio de tanto
azar, ao balcão do quiosque ou do café mais a jeito e metem-se com ambas as
mãos a raspar resmas de cartões da Santa Casa, mais conhecidos por -
"raspadinhas". Saem de suas casas com "passos" decididos e
esperançados em tirar "coelho" da cartolina, para entrar numa
daquelas que pode ser a casa de sorte escondida, que a da Misericórdia
licenciou, espalhou, mobilizou e pôs em marcha pelo país fora e nos
"casinou". E para se porem a raspar, qualquer tasca serve. Não é
preciso sair de saco às costas, nem apanhar avião ou comboio. Bastam-lhes umas
moedas de baixo teor, atrás de outras até ao vício, e pedirem num desses
agentes, um cartão seguido de outro até ao sonho, e raspar, voltar a raspar,
"et voilà"! - ganharem a ilusão de que por aquele processo mil vezes
repetido outro tanto de cartões para o caixote do lixo, a vida pode dar o
salto. São mulheres de rosto marcado, sobretudo, que apostam os anéis dos dedos
que raspam, com a barriga aflita pelos filhos encostada aos balcões da sorte e
do azar. Os trocos, que levam à entrada das casas de jogo de risco, nunca mais
serão os mesmos que trazem à saída. Quando lhes sai dois euros de prémio(!) já
lá deixaram dez nas apostas, que prometem, como programa de governo. Assim vai
Portugal. A raspar é que a gente se safa. Mas que safado país nos calhou em
sorte, que só dá ao povo esta altern(e)ativa de se porem a raspar daqui para
fora o mais rápido possível, ou permanecerem, até que fiquem mais tesos e
vencidos na penúria que todos os números revelam.
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