quinta-feira, 6 de março de 2014

A luta dos polícias em luta

Os polícias não passam fome. Ninguém os vê enfileirados ou em formatura atrás da sopa dos pobres nas Misericórdias e Instituições beneméritas e de caridade que pelo país medram depois do 25 de abril de 74. Pelo contrário, passeiam-se de barriga cheia e pesada que os impede de chegar ao local de onde foram chamados com urgência e onde o crime já era. Ninguém os vê a serem entrevistados antes de marcharem em busca de trabalho nos aeroportos, logo atrás dos licenciados, académicos diversos, e investigadores. Tudo á mistura com trabalhadores indiferenciados que levam na bagagem muito desespero e outro tanto de incerteza. Não andam a dormir debaixo da ponte após um despejo por parte de um senhorio reforçado por lei, nem se deslocam em viaturas a desfazerem-se ou com falta de inspecção e do seguro. Não percorrem casas de penhores e do desenrasca, nem casa de compra e venda de ouro para cambiar o cordão que a mãe ou avó deixou, nem o anel de casamento que os padrinhos lhes ofereceu no dia da aliança promissora e jurada diante Deus. No entanto dizem-se preocupados com o seu salário. Que não chega para as despesas contraídas com o banco, por causa do empréstimo para a casa com quintal, ou apartamento aquecido, a decoração a gosto, com as prestações do automóvel brilhante em que passeiam, com os estudos, legítimos, dos filhos, etc. Nada que tenha a haver com o pão sagrado. Tudo contraído em tempo recorde, poucos anos depois de terem entrado para a Corporação. Porém, nenhuma preocupação com procurar emprego mais bem pago numa tenda de regalias, com a telha para cobrir o tecto, ou melhorar o barraco em que porventura habitem, como a que estão obrigados os trabalhadores precários em geral, e somos a maioria. Nada disso. Estão em luta para se cobrirem da cabeça aos pés com farda confortável e cheia de bolsos onde caiba tudo - salário, subsídios e desvios, por prémios de antiguidade e de louvor. Aquilo é uma profissão de risco sim senhor, mas com actividade diminuída e apagada na maior parte do tempo, e que não merece ser abandonada. Eles não estão nela forçados, nem com uma pistola apontada à cabeça. Nada os prende a ela. São voluntários e podem abandoná-la quando entenderem, tal como os trabalhadores em geral fazem - para emigrar até. Se outro saída não houver!


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