segunda-feira, 17 de março de 2014

Uma estória à nossa medida

O homem da batina morreu, não se sabendo com exactidão a causa da morte, se natural por velhice, ou provocada por inalação excessiva do fumo dos círios erguidos no lugar de oração ou ainda pelos cigarros que devorou durante a sua misericordiosa pastorícia. Certo, é que agora na hora em que foi chamado para junto de Deus, seu Chefe e Senhor, fez juntar altas personalidades e baixas figuras cinzentas, que em momentos tais fazem-se notar e ouvir, tecendo-lhe os maiores elogios, dando asas a encomiásticas frases que nem anjos ousam libertar, que vão muito além do que um dicionário vulgar contém ou suporta, mas que a previdência recomenda levem no bolso, se for o caso de virem a precisar. Um autêntico cortejo de finos seguidores, carregados de palavras de circunstância para pesar e ter efeito. Eu povo, confesso, que não entendo nem metade do que se diz do homem que se diz que fez isto e aquilo. Que a criatura fez coisa de monta deve tê-lo feito pois até o presidente da nação decretou luto nacional. Eu é que não dei por nada em mais de meio século que levo de vida e mais uns tantos de canseira e sofrimento, longe de qualquer tacho ou sacristia. Mas se tal alma subida é superiormente enaltecida por tão elevadas personagens que a gente identifica, por cá andarem há muito e irem a todas, e por enfiarem as mãos nos bolsos de tão luxuosos sobretudos escuros, os pés em sapatos italianos, que botam pelas costas xailes negros e chiques, quem sou eu para duvidar da humanidade do defunto, pela qual será recordado? Mais ainda pela obra deixada que contribuiu para aliviar a pobreza do país e fortalecer a riqueza do povo de onde eu venho? Se assim não fosse para que serviria um homem desta estatura, se não servisse ao povo que dele haveria tirar proveito, e da obra exemplar que com certeza deixou e que alimentou uns e salvou da miséria, outros? Desconheço, mas suspeito da importância do "ido de março" a avaliar pelas palavras, palavras,palavras, dos que por perto choraram a sua morte inesperada. Da compilação ou da conversa da treta, destaquem-se algumas:- "personalidade de excepção; inteligência sereníssina; príncipe da inteligência; a alta síntese de lucidez e bondade; lucidez com que sempre abraçou as grandes causas; grande bondade com que acompanhou o clero e os fiéis" - E uma reitora até agradece a Deus a benção que sobre ela caiu por ter privado com o prelado que revelava um "humor fino e bem disposto para além da capacidade de afecto e dádiva". A que juntava,- "raras qualidades morais e intelectuais. Homem de acção determinada e empenhada. Norte de sempre novos futuros". Fantástico não há dúvida. Porém, eu povo, é que não entendo por mais voltas que dê à cabeça vulgar, como é que com homens desta craveira, de elevada estirpe, tão ilustres, tão celestes antes de chegarem ao céu e serem próximas de Deus, o nosso país e o nosso povo está como está;-enxuto. Interrogo-me sobre este paleio que não enche barriga e de que o mundo está farto.Que equipamento existe em escola ou hospital que tenha sido ofertado pelo patriarca? Que pão está em cima da mesa dos famintos saído do seu celeiro? Sinceramente acho que eu devo ser muito burro, para não entender nada sobre tal homem emérito, e os seguidores finos que fazem questão de aparecer no velório ou exéquias. Pelo menos, mais burro quanto o Jesus - o cardinal Jorge, que mesmo com atitudes de ordinário sabe contar com os dedos até três, querendo dizer quatro(!). Este terrestre encarnado, sempre tem muita "experiência que lhe dá o altíssimo conhecimento"... que a mim falta!


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