O homem da batina morreu, não se sabendo com exactidão a causa da morte,
se natural por velhice, ou provocada por inalação excessiva do fumo dos círios
erguidos no lugar de oração ou ainda pelos cigarros que devorou durante a sua
misericordiosa pastorícia. Certo, é que agora na hora em que foi chamado para
junto de Deus, seu Chefe e Senhor, fez juntar altas personalidades e baixas
figuras cinzentas, que em momentos tais fazem-se notar e ouvir, tecendo-lhe os
maiores elogios, dando asas a encomiásticas frases que nem anjos ousam
libertar, que vão muito além do que um dicionário vulgar contém ou suporta, mas
que a previdência recomenda levem no bolso, se for o caso de virem a precisar.
Um autêntico cortejo de finos seguidores, carregados de palavras de
circunstância para pesar e ter efeito. Eu povo, confesso, que não entendo nem
metade do que se diz do homem que se diz que fez isto e aquilo. Que a criatura
fez coisa de monta deve tê-lo feito pois até o presidente da nação decretou
luto nacional. Eu é que não dei por nada em mais de meio século que levo de
vida e mais uns tantos de canseira e sofrimento, longe de qualquer tacho ou
sacristia. Mas se tal alma subida é superiormente enaltecida por tão elevadas
personagens que a gente identifica, por cá andarem há muito e irem a todas, e
por enfiarem as mãos nos bolsos de tão luxuosos sobretudos escuros, os pés em
sapatos italianos, que botam pelas costas xailes negros e chiques, quem sou eu
para duvidar da humanidade do defunto, pela qual será recordado? Mais ainda
pela obra deixada que contribuiu para aliviar a pobreza do país e fortalecer a
riqueza do povo de onde eu venho? Se assim não fosse para que serviria um homem
desta estatura, se não servisse ao povo que dele haveria tirar proveito, e da
obra exemplar que com certeza deixou e que alimentou uns e salvou da miséria,
outros? Desconheço, mas suspeito da importância do "ido de março" a
avaliar pelas palavras, palavras,palavras, dos que por perto choraram a sua
morte inesperada. Da compilação ou da conversa da treta, destaquem-se algumas:-
"personalidade de excepção; inteligência sereníssina; príncipe da
inteligência; a alta síntese de lucidez e bondade; lucidez com que sempre
abraçou as grandes causas; grande bondade com que acompanhou o clero e os
fiéis" - E uma reitora até agradece a Deus a benção que sobre ela caiu por
ter privado com o prelado que revelava um "humor fino e bem disposto para
além da capacidade de afecto e dádiva". A que juntava,- "raras
qualidades morais e intelectuais. Homem de acção determinada e empenhada. Norte
de sempre novos futuros". Fantástico não há dúvida. Porém, eu povo, é que
não entendo por mais voltas que dê à cabeça vulgar, como é que com homens desta
craveira, de elevada estirpe, tão ilustres, tão celestes antes de chegarem ao
céu e serem próximas de Deus, o nosso país e o nosso povo está como
está;-enxuto. Interrogo-me sobre este paleio que não enche barriga e de que o
mundo está farto.Que equipamento existe em escola ou hospital que tenha sido
ofertado pelo patriarca? Que pão está em cima da mesa dos famintos saído do seu
celeiro? Sinceramente acho que eu devo ser muito burro, para não entender nada
sobre tal homem emérito, e os seguidores finos que fazem questão de aparecer no
velório ou exéquias. Pelo menos, mais burro quanto o Jesus - o cardinal Jorge,
que mesmo com atitudes de ordinário sabe contar com os dedos até três, querendo
dizer quatro(!). Este terrestre encarnado, sempre tem muita "experiência
que lhe dá o altíssimo conhecimento"... que a mim falta!
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