Entre as muitas coisas
que Abril abriu e permitiu, para além da liberdade de expressão(!), foi a
possibilidade da mediocridade reinar. Portugal tornou-se da velha noite para o
novo dia, o país onde a falsidade, a desonestidade, a falcatrua, a burla
criminosa, a corrupção, ganhou o estatuto de normalidade com o à vontade de
Lei. Incoerente, como não podia deixar de ser, tendo em conta o lamaçal em que
se move, incrimina o falso padre que celebrou missas, casamentos, baptizados e
até funerais, condena falsos médicos que exercem em clínicas e dão consultas
aos aleijadinhos, aprisiona falsos juízes que mandam soltar criminosos, e
outros que tentam cobrar por telefone penhoras sob processo pendente, falsos
fiscais da segurança social, falsos filhos do Jerónimo Martins que prometem a
jogadores da bola multiplicar a sua fortuna, falsas herdeiras da BIC que
enrolam industriais abonados, e aceita ao mesmo tempo, com a tal normalidade,
as licenciaturas falsas dos ministros, e as decisões de Juízes do Tribunal
Constitucional sobre a inconstitucionalidade dos cortes dos subsídios
históricos, com explicações estrambólicas a justificarem o despacho que diz,
que agora é assim e depois assado. O que está está, logo se verá. Que diferença há entre o falso padre e o
fictício doutor que deu em governante, para que um mereça a pena aplicada e o
outro não? Qual a razão que desconsidera as habilitações profissionais do falso
clínico, que já tem de prática alguns anos e créditos firmados no mercado, e
considera legal e justificado a licenciatura manhosa, que assenta em
pressupostos idênticos, do chico-político, que do dia para a noite ou num prazo
mais obscuro e subreptício, se certifica, e se apresenta com curso de escola
superior, aldrabado? E que devemos nós pensar do curso de formação académica,
de um conjunto de juízes de um órgão do Poder, que decide da constitucionalidade
de leis da república e de que Universidade são eles oriundos? Quantos e quem
são eles, para que se sintam protegidos e intocáveis, ou será que este país é
mesmo uma falsidade e quando aparece é só para expor-se ao ridículo e virar
anedota? Que moral e transparência nos trouxe Abril?

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