Os problemáticos estádios de futebol para o Mundial do Brasil, bem antes
do pontapé de saída e de por a bola a rolar no gramado, estão manchados já de
violência pelo sangue derramado dos operários que neles perderam a vida e pelo
luto no centro do espectáculo. O número de vítimas que neste "jogo"
pereceram, porque se esforçaram nos prolongamentos, numa luta contra o tempo para
que tais obras gigantescas estejam prontas para gáudio dos organizadores, sejam
chefes da FIFA, governantes de nações ou de tribos e das massas populares,
trazem-nos à memória os mortos forçados de outras eras que sucumbiam sob
chicote ao trabalho duro e perigoso durante as construções megalómanas da idade
média, mandadas erigir pelos monarcas, imperadores, faraós e quejandos. Quer na
época antiga ou mesmo nesta pós-moderna, aos "ditadores das democracias
actuais" pouco importam os sacrifícios impostos, as condições de trabalho
e de segurança, a fome dos que cavam e assentam o tijolo. O que é preciso é
cumprir compromissos e prazos. Urge aprontar tudo e chegar antes do apito
inaugural para a fotografia de grupo com pompa e circunstância. Este campeonato
do mundo começa com cadáveres em fora de jogo, em estádios regados com suor,
sangue e lágrimas. Dilma, Merkel, Blatter, Platini e até Pélé estão protegidos
e têm bom tecto. Porém os trabalhadores e o povão em geral, manifestam-se,
protestam e não estão dispostos a aplaudir o evento grandioso. Jêrome Valcke,
secretário geral da FIFA, pôs o dedo na ferida e desabafou sem querer(!) mas
admitindo que tem "vivido um inferno na construção deste Mundial no
Brasil". Mas os brasileiros vivem num inferno há mais do que muitos anos
sem tecto nem abrigo e correm numa pista em pés descalços e descamisados, sem
acesso decente aos campos da Saúde e da Educação, e só com direito a subir ao
pódio da injustiça que se ergue naquele imenso pantanal, que há-de ostentar os
Estádios da vaidade e da arrogância e assentes na dor do povo. Os discursos dos
"maiorais de hoje que lembram coronéis de ontem", estão prontos e a
tempo para as cerimónias inaugurais nos espalhados doze teatros de doze de
junho, para nordestinos, sertanejos, paulistas e baianos, e o Mundo ouvir. O
povo feito índio todo o dia, tem que continuar a preparar as faixas de
reivindicação, manifestar-se, a fazer greves, num movimento sem fim à vista e
numa de reclamação contra todas as grandes penalidades que sofre naquele país,
que não é aquela praia como nos querem fazer crer e vender, com cartazes em
biquini para turista ver. Até quando o “côco” deles irá resistir?
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