sexta-feira, 9 de maio de 2014

Chutos e pontapés


Os problemáticos estádios de futebol para o Mundial do Brasil, bem antes do pontapé de saída e de por a bola a rolar no gramado, estão manchados já de violência pelo sangue derramado dos operários que neles perderam a vida e pelo luto no centro do espectáculo. O número de vítimas que neste "jogo" pereceram, porque se esforçaram nos prolongamentos, numa luta contra o tempo para que tais obras gigantescas estejam prontas para gáudio dos organizadores, sejam chefes da FIFA, governantes de nações ou de tribos e das massas populares, trazem-nos à memória os mortos forçados de outras eras que sucumbiam sob chicote ao trabalho duro e perigoso durante as construções megalómanas da idade média, mandadas erigir pelos monarcas, imperadores, faraós e quejandos. Quer na época antiga ou mesmo nesta pós-moderna, aos "ditadores das democracias actuais" pouco importam os sacrifícios impostos, as condições de trabalho e de segurança, a fome dos que cavam e assentam o tijolo. O que é preciso é cumprir compromissos e prazos. Urge aprontar tudo e chegar antes do apito inaugural para a fotografia de grupo com pompa e circunstância. Este campeonato do mundo começa com cadáveres em fora de jogo, em estádios regados com suor, sangue e lágrimas. Dilma, Merkel, Blatter, Platini e até Pélé estão protegidos e têm bom tecto. Porém os trabalhadores e o povão em geral, manifestam-se, protestam e não estão dispostos a aplaudir o evento grandioso. Jêrome Valcke, secretário geral da FIFA, pôs o dedo na ferida e desabafou sem querer(!) mas admitindo que tem "vivido um inferno na construção deste Mundial no Brasil". Mas os brasileiros vivem num inferno há mais do que muitos anos sem tecto nem abrigo e correm numa pista em pés descalços e descamisados, sem acesso decente aos campos da Saúde e da Educação, e só com direito a subir ao pódio da injustiça que se ergue naquele imenso pantanal, que há-de ostentar os Estádios da vaidade e da arrogância e assentes na dor do povo. Os discursos dos "maiorais de hoje que lembram coronéis de ontem", estão prontos e a tempo para as cerimónias inaugurais nos espalhados doze teatros de doze de junho, para nordestinos, sertanejos, paulistas e baianos, e o Mundo ouvir. O povo feito índio todo o dia, tem que continuar a preparar as faixas de reivindicação, manifestar-se, a fazer greves, num movimento sem fim à vista e numa de reclamação contra todas as grandes penalidades que sofre naquele país, que não é aquela praia como nos querem fazer crer e vender, com cartazes em biquini para turista ver. Até quando o “côco” deles irá resistir?


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