segunda-feira, 15 de outubro de 2012

"Passelvas & Miguelho..."






A classe política, e em particular muitos governantes ou outros que o foram, estão sob investigação por prática de actos ilícitos, e cujos processos, que gatinham nas garras aparadas do Ministério Público, estão, como é óbvio, em segredo de justiça. O tempo, porém, diz-nos, que o segredo não é tanto assim, e a justiça nunca acontece como o desejável, porque pelo caminho da investigação, que pretende chegar à prova do ilícito comprovado, os tropeções que a PGR dá e a paralisa, são gritantes, esquisitos, e como é óbvio também, tudo acaba em águas-de-bacalhau. A matéria em causa e suspeita, esvanece-se, e o prevaricador investigado, se não for promovido, é colocado noutro pedestal, com benefícios e mordomias, acrescidos. Os amigos conluiados que formam o círculo de interesses e dominam, o país dos sacanas, fecham-se na hora do cerco e do aperto, pelas polícias e pelos "media" especializados em esclarecer negócios escuros, favores criminosos, aprovações de concursos e propostas de projectos fraudulentos, que aterram em outlets, ou levantam duma qualquer tecnoformadora ppc-mr, que lhes permita embolsar dinheiros públicos, sem que tenham algum dia, dado formação ao coveiro da autarquia, ou ao jardineiro, contínuo, porteiro, motorista, administrativo, afilhado, de modo a desempenharem função que cuidasse das condições que punham a voar um papagaio de papel que fosse, num heliporto que nunca existiu, e que não passa hoje de um aterro, verdadeiramente. “Passelvas” y “Miguelho”, os principais personagens, desta ficção a querer ser estória à medida que cresce, são dois exemplos de governantes que estão por detrás, “de golpadas sempre negadas, de procedimentos desmentidos, de contactos não realizados, de actos nunca praticados, de contratos jamais celebrados, de dinheiros nunca entregues e nunca recebidos”, neste Paraísugal para eles, e Portinferno para nós - lugares que só constam no sub-mapa europeu, mas inseridos na geografia do gamanço universal. Qualquer trapalhada, porém, acaba arquivada nas costas do povo, que sustenta os desmandos e a pouca vergonha, na gestão da coisa pública, e a corrupção que daí sempre emerge. No entanto, para que a culpa não morra solteira, convém encontrar culpados, para dar satisfação a alguns sectores dominantes e do Poder, que teimam em chamar a este País, um Estado de Direito, e os culpados são,(uma pausa enquanto se abre o envelope) – os Órgãos de Comunicação Social - que pagam por fim as favas, ameaçados como foras-de-lei, que ousam desvendar e revelar as redes ocultas neste país depravado, os negócios polémicos e suspeitos, entre amizades estranhas, que partilham percursos de vida. A coisa está preta e é companheira íntima do Passelvas. Esperemos que a partilha de tal coisa, nunca tenha sido feita com o Miguelho, mas se aconteceu, há que apurar e destapar o lençol. São unha da mesma carne – a sacanice irmana-os. A nós, acomodados, só nos resta aguentar no silêncio da lágrima e da lamúria, estar atentos às escutas que se fazem, às denúncias divulgadas, às investigações judiciais que se esvaziam no tempo, e que dão como resultado – nada! Parafraseando Jorge de Sena, “Que país é este, se não um fingimento”?

                                     

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