Nestes últimos dias, as capas dos jornais não param de nos revelar fotos
com imagens terríveis, monstruosas, que deviam pertencer a um mundo inexistente,
ou apenas ao imaginário. Duas fotos ganham relevo e rebentam pelo impacto que
contêm, ao mostrar-nos a perda da vida de duas pessoas, por entre milhões de
mortes executadas pela estupidez e na loucura dos homens e da guerra permanente
em que vivem e fazem disso profissão até. Os atentados, os massacres, o
genocídio levado a cabo por homens contra homens através da bala, do punhal, da
bomba e do míssil sofisticado e teledirigido contra o zé, o manel, a maria com
criança ao peito, levam sempre na "embalagem a bula das explicações"
que pretende justificar o acto da matança. O jornal Público, em dois dias
seguidos encapou com duas fotos a história contemporânea e o seu miserável
percurso. Num destes dias dá-nos a imagem violenta, quase indescritível, de uma
mulher e mãe ucraniana deseperada, que destroçada chora envolta nos braços de
um homem meio civil meio soldado. E no meio da calçada destruída, "jaz
morta e arrefece" a sua filha descalça, desfeita, esborrachada pela
metralha assassina que outros homens fardados e camuflados, disparam.
Que dor tamanha nos faz e nos consome o coração! No outro dia o jornal não nos
poupa, e espeta-nos com nova foto, desta vez a de um jornalista/repórter à
beira da decapitação, indefeso e impotente, tendo por sombra o carrasco do
deserto. De joelhos como penitente, com túnica laranja e a mão inimiga por cima
do seu ombro, como espada ceifeira, prometida e cumpridora da hedionda
sentença, fria e calculada. O Público quer-nos dar testemunho do que vai
pelo Mundo. O jornal cumpre a sua função e o jornalista, quer o do deserto onde
é refém quer o da redacção livre, não têm culpa de que a história se escreva
desta forma e vá por este caminho. A mulher que sofre e chora sangue pela sua
filha desfeita à frente dos seus olhos, e o freelancer decapitado também não.
Apenas uma diferença os separa. Aquela mãe e filha não procuraram estar por
dentro da guerra e dela queriam fugir. Já o repórter assassinado era
voluntário. Foi para aquele teatro negro e reles em serviço por uma causa forte
e de superior interesse para o mundo. Ele só queria informar-nos, dar notícia
daquilo de que são capazes os homens, que em vez de amarem como aquela mãe
ucraniana, caída e apertada nos braços protectores do filho consolador, matam
num abrir e fechar de olhos, mesmo quem nunca sobre eles disparou senão a
máquina fotográfica ou quem só quer encontrar o pão da sobrevivência. Mas a
guerra é assim mesmo. A revelação da estupidez e da loucura dos homens. Eles
sim, são um cancro dia(e)bolizado e incurável. Afinal a culpa será de
nós todos!
Sem comentários:
Enviar um comentário