quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Imagens da Guerra

Nestes últimos dias, as capas dos jornais não param de nos revelar fotos com imagens terríveis, monstruosas, que deviam pertencer a um mundo inexistente, ou apenas ao imaginário. Duas fotos ganham relevo e rebentam pelo impacto que contêm, ao mostrar-nos a perda da vida de duas pessoas, por entre milhões de mortes executadas pela estupidez e na loucura dos homens e da guerra permanente em que vivem e fazem disso profissão até. Os atentados, os massacres, o genocídio levado a cabo por homens contra homens através da bala, do punhal, da bomba e do míssil sofisticado e teledirigido contra o zé, o manel, a maria com criança ao peito, levam sempre na "embalagem a bula das explicações" que pretende justificar o acto da matança. O jornal Público, em dois dias seguidos encapou com duas fotos a história contemporânea e o seu miserável percurso. Num destes dias dá-nos a imagem violenta, quase indescritível, de uma mulher e mãe ucraniana deseperada, que destroçada chora envolta nos braços de um homem meio civil meio soldado. E no meio da calçada destruída, "jaz morta e arrefece" a sua filha descalça, desfeita, esborrachada pela metralha assassina que outros homens fardados e camuflados, disparam. Que dor tamanha nos faz e nos consome o coração! No outro dia o jornal não nos poupa, e espeta-nos com nova foto, desta vez a de um jornalista/repórter à beira da decapitação, indefeso e impotente, tendo por sombra o carrasco do deserto. De joelhos como penitente, com túnica laranja e a mão inimiga por cima do seu ombro, como espada ceifeira, prometida e cumpridora da hedionda sentença, fria e calculada. O Público quer-nos dar testemunho do que vai pelo Mundo. O jornal cumpre a sua função e o jornalista, quer o do deserto onde é refém quer o da redacção livre, não têm culpa de que a história se escreva desta forma e vá por este caminho. A mulher que sofre e chora sangue pela sua filha desfeita à frente dos seus olhos, e o freelancer decapitado também não. Apenas uma diferença os separa. Aquela mãe e filha não procuraram estar por dentro da guerra e dela queriam fugir. Já o repórter assassinado era voluntário. Foi para aquele teatro negro e reles em serviço por uma causa forte e de superior interesse para o mundo. Ele só queria informar-nos, dar notícia daquilo de que são capazes os homens, que em vez de amarem como aquela mãe ucraniana, caída e apertada nos braços protectores do filho consolador, matam num abrir e fechar de olhos, mesmo quem nunca sobre eles disparou senão a máquina fotográfica ou quem só quer encontrar o pão da sobrevivência. Mas a guerra é assim mesmo. A revelação da estupidez e da loucura dos homens. Eles sim, são um cancro dia(e)bolizado e incurável. Afinal a culpa será de nós todos!
                         

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