Em minha casa, nunca tivemos um Natal folgado, porque o dinheiro que
precisávamos para o enfeitar e fazê-lo mais luminoso, apagava-se logo no início
da época escolar. A obrigatoriedade de comprar os materiais exigidos, no
arranque das aulas, levava-nos à penúria, de tal maneira, que o Natal
impunha-se sempre soturno e numa atmosfera de desconforto que só o vazio
provoca. As montras da abundância e do luxo, que se acendem e movem angústias
nesta época, aos nossos olhos luziam como ofensas. No conjunto de três filhos
que tenho, número que passou de moda, esfolaram-me cerca de 26 500euros, em
equipamento, sem nunca lhes ter dado artigos de marca, durante os anos de
ensino obrigatório, e sem que nesse montante aplicado, entrassem despesas com
vestuário, calçado, alimentação, transportes e saúde. Equipados com lápis de merceeiro,
mochilas de feira, estojos de irmão para irmão, cadernos de supermercado,
aguças do chinês, etc. os três filhos lá foram "cantando e rindo"
como podiam, agarrados à côdea, vencendo a tormenta do ensino público, mas
necessário. Agora, (parece que não tão, agora), vem o ministro, que dizem, ocupa
o lugar de primeiro no governo, à frente de Gaspar, e de Portas mais atrás,
alertar, que as despesas do ensino obrigatório, terão de ser
"repartidas", entre o Estado e os cidadãos, pondo deste modo em causa,
a gratuitidade da escolaridade oficial. A pergunta que a minha angústia
levanta, é esta; - quando foi que o Estado sustentou, suportou, apoiou os meus
filhos, durante os anos que os amarrou à formação académica básica e
secundária, que a Constituição da República, declara ser universal, gratuita e um
direito para todos, para vir agora (parece que já não),dizer que as custas com
o financiamento nessa juvenil formação, devem ser "repartidas", se
até hoje só houve um investidor, os pais, que fazem das tripas coração e das
sardinhas, bifes, para que eles chegassem ao fim da etapa instituída na lei,
com sucesso, neste país sem trabalho nem futuro? E se mandássemos este
ministro, dar uma volta ao bilhar grande ou à caça de gambusinos nas próximas
eleições? Um governante imberbe, que hoje dá o dito por não dito, que o que é
carne hoje, amanhã é peixe, que se contraria repetidamente, querendo fazer de
nós intérpretes tontos, que anda cá a fazer? ONG´s de que já não se lembra?
Enquanto isso não acontece, nós lá por casa, procuramos por entre a escuridão,
que se alojou faz tempo, não chocar uns com os outros, e a tentar encontrar a
porta de saída para dias com mais Sol.

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