A minha árvore de natal esta época, vais estar apagada. Sobre ela caiu
um manto de tristeza, e dela não se acenderá qualquer brilho. Será decorada com
sombras duras, pesadas e que ferem. As crianças não terão bonequinhos de
chocolate em forma de pai-natal, nem sininhos, estrelinhas, nem meias-luas, nem
moedas de imitação doces, para comer no fim da quadra festiva, no dia em que
ela se desmancha. As moedas a sério do salário e da reforma que nos tiraram de junto
das que não temos, despem-na da alegria com que a ornamentavamos noutros
tempos. Agora só podemos dependurar em cada ramo, o cotão áspero e amargo a
fazer de algodão. Com alguma fantasia e outro tanto de imaginação, ainda
podemos apanhar na rua uns caixotes de cartão, e neles desenhar e depois
recortar umas figuras ou uns símbolos para a decorar. Talvez que com algum
engenho, um pouco de jeito e uma tesoura animada, até nem fique feia. Tudo
embalado em prata dos maços velhos do tabaco terá efeito e engano no coração.
Não há dinheiro como havia para comprar uma iluminação oriental que a ponha a
piscar, nem sequer umas velinhas de cera que a aqueçam e à casa, e façam os
olhos luzir na noite tornada negra e que se queria mais feliz. Vai ser uma
árvore para esconder. Não terá em redor do seu pé, prendas para pôr no
sapatinho de ninguém, e os filhos quando forem mais crescidos hão-de emigrar, e
então lá nesse longe, comprarão a prenda adequada ao seu sapatão, e fazer dessa
noite e em família, “coisa mais linda e cheia de graça”. Acabou-se “o luxo e a
vaidade” de outrora para a exibir no melhor sítio da casa. Arranjei no entanto,
lugar para ela. O meu frigorífico está vazio. A minha despensa está vazia.
Vazia do que foi costume lá ter para o dia-a-dia para consumo, e para uma ou
outra extravagância. Em lugar dos pacotes de arroz, açúcar, farinha, ovos, massas,
atum, salsichas, alho, cebola, batatas, conservas, azeite, óleo, detergentes
que limpam manchas mas não eliminam mágoas, e um espaçozinho reservado para o
bacalhau às postas, que agora foi cortado da lista, e de uns livros velhos que
contavam a “estória” de uma noite mágica, vou lá colocá-la. Armada em árvore
festiva mas envergonhada é certo. Às escuras, já que a despensa não tem lâmpada
no tecto. Há muito que a desenrosquei para poupar onde se pode, e
desenrascar-me melhor nas contas a pagar. Ali,naquele cubículo, também não é um
lugar de convívio, antes passou a ser um reservatório onde agora se guarda a
fome. Mas vai ter companhia. É lá que vou pôr a minha árvore de natal e de
mortal. As lágrimas que abundam, é que não se consegue prendê-las em lado
nenhum. São demasiado líquidas e salgadas, e escapam-se sem a gente querer,
cheias de raiva, por onde entra a miséria e o frio. - Feliz Natal, senhores
ministros!
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