terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

O acidente no Caniço



- A vida é ingrata. Outros chegam ao ponto de entendê-la, via dolorosa desde sempre, até que tomasse forma de Calvário. Assim eu ando por aí com tal pensamento. Não sou portanto um optimista, um felizardo com abrigo. Sou apenas mais um em busca de melhores dias. Na Madeira, uma ilha com tanto mar, que nos vem à memória por diversas ocasiões, às vezes porque tem carnaval, outras pelas flores, ainda pelas raparigas bonitas com o seu falar e o trajar, ainda pelas levadas fatídicas, que turista de ocasião e andante, morre por tanta curiosidade, embevecido pela paisagem. Por coisas boas e tantas nem por isso, e outras mais. Adiante. Um homem jovem, camionista, levanta-se da cama, sem tempo de se despedir dos filhos que dormem, da mulher que lhe prepara(!) a bucha, o aconchego do estômago, sai a trabalhar para ganhar o sustento para a família. A vida mete-se à  estrada, e com intenções de chegar a bom destino. Porém no caminho, o diabo acontece. A vida prega-nos a surpresa de a interromper, e espeta connosco na desgraça que ela tece. Um jovem ao volante de um camião, sofre por cumprir a tarefa rolando numa estrada que faz sofrer, de tão sinuosa e traiçoeira. A vida é um mistério, algo insondável, impenetrável, irracional. Filósofos tentam explicá-la o melhor que sabem e podem. Eu fico-me por esta conclusão - a Vida é ingrata. Faz-nos perder a carga que ambicionamos entregar no lugar que permitisse dar-lhe continuidade com alegria e mais prazer, a tempo sempre de regressar para junto da família inteira, que ansiava pela nossa chegada, são e salvo. Tal não aconteceu no despiste de um camião de trabalho com um homem jovem ao volante e cheio de esperança de permanecer na sua rota. Mas a vida está feita de "Curvas, de Azenhas, de Estreitos, de Caniços, de Lobos esfomeados, que nos enterram em Câmaras", não se importando com crianças órfãs largadas à sua sorte. Não é justo!*

-*(DNot.Mdrª-11.02)

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