- A minha Mãe morreu jovem, ainda na casa dos trinta anos. Eu não a
conheci. O meu pobre Pai, ficou comigo e com mais três filhos pequeninos, em
situação bem precária. Sapateiro de profissão, depois de ter levado uma vida em
criança entre a fome e os piolhos, ter mendigado de porta em porta com um pau e
um saco na extremidade, moço de servir em morgados ricos aonde lhe garantiam
enquanto escravo, a côdea e a malga de sopa, tomou o caminho de moleiro
montando com tenra idade, uma mula, que o levava à distribuição da farinha
entre o moinho e o cliente, dormindo sobre o dorso da besta, naquele vai e
volta. Foi crescendo e já adulto e obrigado à independência, pois descendia
também da orfandade, sem ter conhecido o seu pai, meu avô, trabalhou para mudar
o destino. E mudou. Fez-se homem, casou, e teve quatro filhos. A minha mãe
morreu de doença ou como se diz agora, por erro médico. Outros tempos, muita
ignorância. O meu Pai era analfabeto, como toda a sua família. A família da
qual eu descendo. Era eu o mais novo dos rapazes, em que o mais velho só tinha
sete anos, e era surdo-mudo.O meu Pai mandou-me para a escola, sítio que ele
nunca conheceu. Ali aprendi a desenhar palavras e encavalitar números. Naquela
miséria os números mesmo quando somados davam sempre resultados negativos. Foi
entre aquela contas que sobrevivemos. Durante todo aquele "fado"
nunca tivemos ajuda de nenhuma Instituição, nem quem nos desse um osso para
roer. Umas tias também pobres iam ajudando no que podiam. Talvez alguma delas
nos tivesse dado algum banho num dia mais sujo. Talvez nos tenham lavado umas
cuecas mais gastas e até rotas, por onde saíam os gases. Talvez. Mas de uma
coisa temos a certeza; nunca nenhuma Instituição da Segª Soc. nem um Juíz
decretou roubar-lhe os filhos, que o meu Pai trazia sempre debaixo de olho, nos
intervalos em que deixava as solas com cola e pregadas, a secar. Podem dizer
agora, que naquele tempo, eram tempos diferentes. A Sociedade não estava "organizada"
como hoje. Hoje? que "organização", que rouba os filhos aos pais em
vez de os ajudar? O Amor entre pais e filhos tornou-se diferente? esta história
ainda demorava muito tempo a ser contada. Mas vou abreviar. O meu Pai morreu de
acidente, mais novo do que eu sou hoje, já pequeno comerciante, sem conhecer os
meus filhos. Quase lhe vejo os seus olhos a brilhar lá onde quer que esteja a
vigiar-nos. Imagino a sua alegria imensa, ao ver de lá, que os seus
"netos" são hoje todos licenciados sem cunhas nem facilidades, pela
U.P. em engª, arquitectª, e designer comuni窺 pelo ESBAP, e outras valências
.Todos com excelente aproveitamento. Ninguém substitui um Pai e uma Mãe, mesmo
quando estes também carregam o fardo das dificuldades em subsistir, e dar-lhes
guarida. No entanto o Amor, resolve, como mais nada o consegue fazer nem
substituir. Quase lhes contei o "Inferno de Dante". Agora peçam ao
Hieronymus Bosch que faça um desenho. Completava bem, digam lá?
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