terça-feira, 2 de setembro de 2014

"Estatísticas"

Nas páginas dos jornais desenham-se umas barras esticadas ao alto, coloridas e de tamanho desigual, que dizem ser gráficos de estatísticas representativas do número de mortos nas praias do nosso Atlântico, que querem traduzir que estão a baixar em relação a anos anteriores. Ao mesmo tempo, outras nos dizem que o número de incêndios florestais também diminuíram nesta última década, ou seja em idêntico período. Os especialistas, quer os do ISN(Instituto Socorro a Náufragos), quer a Autoridade Nacional de Protecção Civil e o ICNF(Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas)-uuff!-, adiantam explicações para o sucedido, realçando, como quem recolhe louros das algas e das cinzas, que a eles se deve tal sucesso. O ISN reclama que tal diminuição de mortos nas praias costeiras e rios das encostas se deve a grandes campanhas de esclarecimento e bem conduzidas, assim como ao trabalho dos municípios. Os técnicos ligados aos incêndios também encontram o calor do júbilo pelo menor número de fogos, e que a eles e às medidas saídas das mangueiras da competência postas no terreno, se deve igualmente. Será coincidência ou outra a razão, para que na mesma década tenham diminuído os casos trágicos em relação a anos anteriores? A questão não é tão líquida assim e tão seca que não requeira uma valente e reflexiva rega. A nós, parece-nos, que quer o número de fogos nas matas, quer o número de afogamentos nas praias têm a haver e coexistem com os anos em que afogamos na pobreza, na austeridade até ao pescoço, na falta de condições para sair de casa, viajar, fazer piqueniques à volta da fogueira, ir à praia tomar um banho de relax, etc. Se todos ficarmos em casa, passarmos os dias e as férias a olhar para o tecto e no convívio dos ratos, ou sentados na soleira da porta à conversa com o vizinho e a jogar a bisca lambida na tasca imaginando estar num resort, ou no jardim da velhice e à sombra do vazio, os casos relatados, e ilustrados por barras com as cores do sucesso, como se saíssem do atelier de Siza ou de Souto Moura, de combate aos fogos ou de afogamentos no mar e no rio diminuem de certeza drásticamente. Desde que entretanto não apareça um rectificativo a contabilizar as mortes na banheira doméstica, nestes dias de canícula setembrista, as estatíticas hão de bater certo mas não traduzem a realidade à semelhança das traçadas e muito propaladas para o desemprego sem ter em conta a emigração e a eliminação interna por desistência. A isto tudo, é o que se pode chamar de "fogo de artifício" generalizado, que se quer apagar com água política, traiçoeira e suja. A divulgação destes estudos(!) que originam tais estatísticas provam que não são como o algodão. Antes garantem que nós estamos ausentes de todos os lugares.


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