Nas páginas dos jornais desenham-se umas barras esticadas ao alto,
coloridas e de tamanho desigual, que dizem ser gráficos de estatísticas
representativas do número de mortos nas praias do nosso Atlântico, que
querem traduzir que estão a baixar em relação a anos anteriores. Ao mesmo
tempo, outras nos dizem que o número de incêndios florestais também diminuíram
nesta última década, ou seja em idêntico período. Os especialistas, quer os do
ISN(Instituto Socorro a Náufragos), quer a Autoridade Nacional de Protecção
Civil e o ICNF(Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas)-uuff!-,
adiantam explicações para o sucedido, realçando, como quem recolhe louros das
algas e das cinzas, que a eles se deve tal sucesso. O ISN reclama que tal
diminuição de mortos nas praias costeiras e rios das encostas se deve a grandes
campanhas de esclarecimento e bem conduzidas, assim como ao trabalho dos
municípios. Os técnicos ligados aos incêndios também encontram o calor do júbilo
pelo menor número de fogos, e que a eles e às medidas saídas das mangueiras da
competência postas no terreno, se deve igualmente. Será coincidência ou outra a
razão, para que na mesma década tenham diminuído os casos trágicos em relação a
anos anteriores? A questão não é tão líquida assim e tão seca que não requeira
uma valente e reflexiva rega. A nós, parece-nos, que quer o número de fogos nas
matas, quer o número de afogamentos nas praias têm a haver e coexistem com os
anos em que afogamos na pobreza, na austeridade até ao pescoço, na falta de
condições para sair de casa, viajar, fazer piqueniques à volta da fogueira, ir
à praia tomar um banho de relax, etc. Se todos ficarmos em casa,
passarmos os dias e as férias a olhar para o tecto e no convívio dos ratos, ou
sentados na soleira da porta à conversa com o vizinho e a jogar a bisca lambida
na tasca imaginando estar num resort, ou no jardim da velhice e à sombra
do vazio, os casos relatados, e ilustrados por barras com as cores do sucesso,
como se saíssem do atelier de Siza ou de Souto Moura, de combate aos fogos ou
de afogamentos no mar e no rio diminuem de certeza drásticamente. Desde que
entretanto não apareça um rectificativo a contabilizar as mortes na
banheira doméstica, nestes dias de canícula setembrista, as estatíticas hão de
bater certo mas não traduzem a realidade à semelhança das traçadas e muito
propaladas para o desemprego sem ter em conta a emigração e a eliminação
interna por desistência. A isto tudo, é o que se pode chamar de "fogo de
artifício" generalizado, que se quer apagar com água política, traiçoeira
e suja. A divulgação destes estudos(!) que originam tais estatísticas
provam que não são como o algodão. Antes garantem que nós estamos ausentes de
todos os lugares.
Sem comentários:
Enviar um comentário