Ainda hoje está por se saber se a indisposição sofrida pelo homem que na
cerimónia de distribuição de títulos e medalhas, condecorações de e às ordens
de feitos mais ou menos desconhecidos, se deve ao facto de não constar o meu
nome na lista das nomeações. O homem incumbido de tal competência, penso eu,
quando se apercebeu de tal falha, deu-lhe um treco e teve que ser de pronto
amparado e socorrido pelos guarda-costas, estratégicamente ali em missão. Cousa
afinal a que está habituado desde longa data, muitos dez-de-junho, de Camões e
de outras relevantes personalidades em várias e bastas áreas. Áreas, que não
eram própriamente aquelas aonde se amontoaram pessoas anónimas, empunhando
cartazes denunciadores de protesto contra a política nacional que faz pobres e
marginalizados históricos, e ao mesmo tempo figuras e figurantes reconhecidos e
recompensados, sabe-se lá por quê, que se riqueza for, ela não chega a casa do
desgraçado. Mas a cerimónia decorreu quase perfeita, não fosse estes percalços:
- a falta de uma condecoração de mérito que devia ser-me destinada, o desmaio
imprevisto da Excelência quando detectou o erro no discurso oficial, e a manif
perseguidora provocada por gente irritante e gritante, que não quer ir ao chão
sem dar luta ou mandar recado do descontentamento que carrega na vida. E que
nem sequer com tal Excelência dobrada sobre si mesma e suportada pelas forças
fardadas, fizeram uma pausa ou abriram uma trégua aos protestos por medidas e
leis que os esmagam. Assim, a minha interrogação, que dúvida é, prende-se com o
motivo ou a causa que levou quase ao tapete o dono-das-medalhas, incumbido de
as distribuir com elevação na cidade mais alta de Portugal, e no seu dia de
maior significado. Reflecti, equacionei, voltei a somar e a dividir, e após
este exercício matemático, este trabalho todo, regressei ao óbvio já apontado -
que foi pelo facto de me terem subtraído e afastado das nomeações por obras
valorosas, é que deu aquela fraqueza repentina ao responsável máximo que
presidia ao acto nacional e tornou o dia numa imagem simbólica que correrá
mundo sobre o estado da nação. Mas quem sou eu afinal, para merecer subir ao
palco aonde se senta a elegância com a bandeira na lapela por um lado, e a
autenticidade e o valor por outro, reconheça-se? Apenas aquele que trabalha e
mantém o País de pé, que sofre e sangra, que é roubado, descrimininado, e
desrespeitado continuamente - O Povo. Simplesmente!
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