sexta-feira, 25 de abril de 2014

Carta com recado aos homens

Manuel Baltasar, homem de 61 anos endurecidos na serra e no frio do isolamento, está em fuga por vales e montes há mais de uma semana, cheia de dias de pesadelo, por ter, ao que se sabe e os jornais anunciaram, matado cegamente, familiares que a natureza impunha que fossem próximos, mas de quem tinha queixas ou coisa pior, que os afastava. Sogra e a tia da ex-mulher mortas à socapa com caçadeira de ponta, ferido filha, talvez sem igual vontade, e ainda a sua mulher que certamente nunca soube ser sua companheira. Ele muito menos - não sabemos! Forças policiais em número elevado, galgam o terreno suspeito primeiro, e o agreste depois, à sua procura. Baltasar conhece os caminhos e os montes, o trilho do javali e da toupeira, e sabe onde atravessar pontes e riachos como ninguém. O mesmo é dizer:- como só ele. A batida policial, repressiva e perseguidora do homem causador da desgraça grande, multiplicou-se e desdobrou-se num esforço medido a revirar encostas acima e abaixo, sem tirar os olhos dos casebres abandonados, penedos, fragas, grutas, minas e covas, ou até de um buraco igual àquele em que se escondeu e foi apanhado, Sadam Hussein. O fugitivo, acusado de crimes bárbaros e acossado por fardas e cães que se vêem de longe, não deixa rasto nem cheiro sequer. Ele próprio caçador experimentado de caça grossa e armado, o que lhe empresta alguma bravura, tingido de sangue no coração, ferido na honra mais do que no orgulho, e por certo carregado de dúvidas. Confundido de medo, de sombras e de fantasmas, quando a noite cai e nela se envolve, sempre há-de pensar;-" que farei desta vida... entrego-me? Não o faço? Ninguém me ouvirá com justiça, que até hoje ninguém quis saber das minhas razões, ou das razões que me recusaram. Ninguém perguntou por mim enquanto homem mal-amado. Só me querem apanhar, prender, maltratar, imputar culpas por tudo e por nada, inventadas até, que quem conta um conto junta-lhe mais um ponto, esvaziando-me das razões que me levaram a praticar coisa má, muito ruim que não tem perdão, reconheço, mas para o qual fui empurrado, pelo diabo pode ser".- Baltasar só quer como outro homem qualquer, poder ter oportunidade de contar a sua "estória", que poucos levarão a sério. Ninguém a achará compreensível, muito menos justificável, e no entanto era só o que pedia;- compreensão. Ao tempo. Agora, feito o desgraçado mal ele só quer entregar-se e ser ouvido como nunca o foi, e acabar com todo o desespero. O seu e o dos que o temem e por ele não dormem. O "palito", como é conhecido Manuel Baltasar, há-de amansar a raiva, amolecer e abanar como giesta, mas nunca permitirá que seja apanhado para ser exibido como troféu de caça, depois de consumadas as mortes anunciadas, se ninguém mexeu um dedo para as evitar, e agora tudo junto sem nenhum remédio. Onde quer que estejas Baltasar, e se leres esta carta, sai do "buraco" em que te enfiastes, regressa e enfrenta a justiça das Leis, que outros homens as fazem, e que são capazes de um outro olhar e de te devolver a paz. A que mereceres, justamente. A solução para o teu sofrimento, está em ti. Aparece homem de Deus!

- (continuação...)


O fugitivo de Trevões
...é por demais evidente, que a mobilização das forças policiais e os meios ao seu dispor, é uma coisa inédita neste país, tendo em conta o objectivo a alcançar. Centenas de homens armados até aos dentes e trajados como ninjas, outros montados a cavalo seguidos de cães que fazem lembrar um quadro inglês a representar uma largada de caça, embora sem igual nobreza, não passa de inédito exercício para aproveitamento militar no futuro. A cavalaria a passo e só raramente ensaiando o trote, espreita monte abaixo e serra acima, indícios de presença do fugitivo. De cima do cavalo tenta enxergar peugadas, ramos quebrados, dejectos abandonados, qualquer sinal de vida ou da sua passagem pelo trilho ou fora dele. De binóculos e do alto da "burra", os policiais ainda vêem menos que o homem de Trevões, que é procurado por coisa cruel praticada aos seus familiares, e mais ainda pelo temor que infunde nos lugares vizinhos por onde possa aparecer. Os olhos e os ouvidos de Baltasar enxergam melhor ao longe, que as lentes de guerra usadas na operação que ali se trava numa proporção desigual e nunca vista. "O Palito" não tem mas também não dá descanso a ninguém. Ele sabe do ofício para o qual foi treinado desde cachopo, desde que soube captar o cheiro do gado, do rebanho, do lobo e do javali, e o dos cavalos, o que agora lhe dá vantagem sobre os perseguidores que batem o terreno que esconde armadilhas. Manuel não precisa ser académico de Lisboa, nem comandante de quartel nenhum para saber esgueirar-se, mascarar-se e confundir-se com a rude natureza que foi o seu berço. Basta-lhe saber ser soldado valente nesta guerra que trava sem razão. O homem bravo, graças à sua identificação com o meio, sabe sobreviver, sabe onde está o alimento que o mantém atento e astuto, pernoitar na moita e por lá manter-se sem um ai nem ui,  e desse modo originar o ridículo entre as estratégias militares. Se fosse americano, chamavam-lhe veterano da guerra, e já uma dúzia de argumentistas tentavam adquirir todos os direitos e formas de o levar e elevar a herói através do cinema como só os americanos são capazes. Nós somos mais modestos, e não vamos em fitas, embora apreciemos uma boa cowboyada. O cronista não disfarça uma certa empatia com este "ranger" condenado por assassínio, e por via desse defeito não deixa de estudar a capacidade da sua mobilidade, agilidade, tenacidade, astúcia e porque não dizê-lo inteligência e fibra. O cronista tem a mesma idade do foragido, descende de homens tenazes como ele e talvez por isso o compreenda, que é compreensão o que ele pede e só, e até o Padre da aldeia concorda que foi isso que faltou. Um meio de chegar à fala com quem o possa ajudar aconselhando-o a entregar-se sob certas condições que não o desonrem. O sentido de honra deste Baltasar serrano, não tem o significado incutido no garoto nascido na cidade cosmopolita e cornuda sem efeito sentimental. Garcia Marquez sabia melhor que ninguém definir tal sentido de honra dos homens deste sangrar, nem que para tal ordenasse aos personagens das suas novelas que continuassem a amolar as facas. O fugitivo de Trevões não é fácil de travar – ele anda com os “azeites”, lá por aquele” valongo” agreste...
(continua...)                                                                                                                                                   
- continuação:
Baltasar e o padeiro          
- o encontro:

...Baltasar é sabedor empedernido dos melhores atalhos para cortar distâncias e tempo, de abrigo em abrigo, e debaixo de sombras até ao covil. Conhece os hábitos, costumes e rotinas de todo o pessoal da Pesqueira, e melhor ainda todo o rochedo até Vila Nova das gravuras abandonadas quanto ele. Sabe aonde colher o leite, o mel, a fruta ou mesmo bagas silvestres, e por onde passa a furgoneta do pão que percorre e abastece as aldeias em redor. Num dia destes, o padeiro esbarrou com ele no carreiro, como se houvesse hora marcada entre os dois. Manuel - o "Palito", seco e pálido do frio, não lhe pediu pão. Comprou-lhe o pão necessário, para encher o bornal feito despensa aonde o guardar, e como garantia para os dias vindouros, e a ela pudesse recorrer nos tempos de fome, que há-de apertar e vem apertando. Água tem e sabe aonde ir bebê-la, embora não seja de confiança, mas ele é homem resistente, capaz de combater as bactérias e tantos parasitas presentes e prosseguir a jornada por dentro da saga em que se meteu. O padeiro, também velho conhecido do Manuel, trocou a fala necessária e limitada que o caso avisa e atendeu o "amigo" como mais um cliente num jeito e numa normalidade pouco alterada, e quer-se queira quer não, com alguma compaixão e sentido de ajuda. Conversaram o essencial. Um queria saber como corriam as coisas, o outro, não se coibiu de lhe apontar o caminho da rendição. Baltasar fez de conta, quis foi saber como estava a filha primeiro, e até a ex-mulher depois, alvejadas a zagalote por ele, mas que agora se importava pelo seus estados de saúde. Para com as mortes acontecidas, já não havia remédio e quer-as esquecidas. Agora o momento era para saber da vida dos que escaparam à fúria, e à mira da caçadeira e ao chumbo dos canos, que o destino maldito todos ligou. É o coração do Baltasar a falar da família que o odeia, que o não quer de todo, não tanto quanto parte da população que dele não tem queixa e dele não disse mal, e que apenas lhe chama - infeliz. O padeiro atendeu compreensivo e noticiou-lhe que a Angelina, sua ex-mulher e a filha, a sua vítima involuntária, estavam bem. Quase completamente recuperadas das feridas expostas, que das outras internas e que são do foro psicológico e sentimental-(o padeiro é culto,anda de terra em terra)- dessas nada sabia dizer-lhe. Baltasar ouviu e acendeu-se-lhe melhor cara, embora a Angelina lhe esteja atravessada na garganta. Trocado o pão por dinheiro, que mesmo neste cenário não há fiado, e Baltasar não é homem de ficar a dever nada a ninguém, cada um retomou a direcção que melhor convinha e servia, e desapareceram da vista de um e do outro.
-(continua...)

  


quinta-feira, 24 de abril de 2014

25 de Abril. Sempre?



 Recuso pronunciar-me sobre o 25 de Abril de 74. Os novos oportunistas, aqueles que dele tiraram e retiram dividendos e fortuna, os novos ricos, os mais recentes exploradores dos que trabalham ou dos que sem sustento neste lamacento pedaço de terra, emigram, os novos gatunos do erário público, os gestores modernos que se abotoaram através das mais avançadas técnicas de administração, na banca e nas empresas sofisticadas e protegidas pelo Poder caido nas mãos dos seus amigalhaços e promissores colaboradores, que já o eram e hão-de ser, porque de lá vieram e hão-de voltar, que falem eles que não são poucos, do Abril com 40 anos e mais uns tantos, de onde uns estavam bem e outros se fizeram melhor, à custa do zé-povinho. Que falem eles desse Abril que a uns abriu e a outros escancarou as portas do "sucesso e da impunidade". Os governantes medíocres que conduziram o país dos cravos e das rosas, que discursem sobre tal data cheia de trocados efes - fado fantasia e fome. O povo não tem nada de que se lamentar. Que fale quando é chamado a votar sabedor, ou se cale para sempre nas eleições oficiais que legitimam o mal. Quem o obriga a votar em quem tem votado para governar o país que os mantém no passado pobre, e na miséria actual que já está projectada para o futuro? Que fizeram da vassoura atrás da porta que os pais lhes deixaram e que nem Maio fechou? Não foi só para varrer os espinhos que Abril espalhou e nos armadilhou a entrada na felicidade. Usem-na e ousem ser felizes!
         

domingo, 20 de abril de 2014

"A poeira II"

Vasco Pulido Valente(VPV), "não compreende a realidade que se vive em Portugal, mas não será por isso que ela desaparecerá". Ou compreende mas tenta passar uma esponja pelas suas partes. O que parece que ele quer, no seu desabafo bafiento e a precisar de naftalina, que o Público nos dá a ler em "opinião", é que para V.P.V. o melhor para nós, povo entalado, é que nos acomodemos, que aceitemos este mal pois outro qualquer será pior - Que a nossa mansidão resista até cair de podre. V.P.V é um "bon vivant", imagino eu, que deve gostar de escrever perto de uma estante com uísque em cima, tal como Vinícius de Moraes o fazia no seu piano e noutro tom. Mas cada um faz como quer, pode e lhe apetece. A ele, pelo que escreve na sua crónica ofensiva, provocadora como é habitual, gostará, que o país continue na cepa torta, e que o povo se resigne, e açaimado. Ao povo cabe apenas e só, escutar os "guias sensatos" como o V.P.V. que sabe tudo e nos aconselha, que é preferível o certo ao duvidoso. E o certo, é o que nos chega vindo de fora, e que nós lá pusemos e temos de continuar a por, com juros de sangue, enquanto o duvidoso, é a esquerda política que promete distribuir logo que regresse ao poder, aonde nunca esteve verdadeiramente a governar com inteligência, de facto. O resto é, para o escriba conceituado de direita, um bando de demagogos falhados que prometem ferro e fogo, que dizem distribuir apenas ouro, depois de retirado das cinzas que cobrem o país desde há 40 anos, mais os anteriores herdados da Era em que V.P.V. já comia e bebia como um abade, e até estudava. Coisa de rico. Esquece-se o autor que levanta "a poeira", de que ainda há gente que prefere comer o pão(com "m")que o diabo amassou, e que de tanto habituado a isso, já só vê uma solução na actual situação. É, a ter de sofrer como está, mandar a direita e a troika que a sustenta para o inferno(com "c"), mas saber que com essa luta, a austeridade não se eterniza como está garantido acontecerá, e que os nossos filhos não herdarão só as cinzas nem o pão duro e incerto ou a conta-côdeas, que esta direita interna e externa, promete acentuar, e que não há nenhum papão para além dos que já existem nos "poderes instalados", que nos meta medo de mudar, porque "mudar é preciso". Até de VPV(s).Só assim se tomará novas qualidades, e que a Liberdade só deixará de ser privilégio exclusivo dos que falam de barriga cheia e dela até abusam. Mesmo se em nome próprio ou com pseudónimo.

-(resposta a vasco pulido valente/ler artigo "A poeira" em Público/"opinião" de 20/04/2014)
   

sábado, 12 de abril de 2014

O Apito de Lata


Até pode ser coincidência, mas desde o caso polémico e que pôs em frangalhos a verdade desportiva no futebol nacional que entrou em jogo no escalão maior em determinada época e perdurou por tempo extra, o FCPorto resvala em maus relvados depois que os lençóis que acolheram e afagaram a fruta, sossegaram, e realçam agora, não sei se uma maior pureza e verdade nas prestações nas provas em que compete. O que se constata, é que de deslize em fracasso, de despedida de título ao adeus da competição de gabarito em que se viu envolvido, os dirigentes do Dragão respeitável, lá se vão agarrando ao que resta do que vai sobrando mesmo que não veja nisso grande prestígio. Assim perdido o Campeonato caseiro, depois de expulsos da Liga dos Campeões, logo se apressaram a propagar que uma época bem sucedida seria vencer um título Europeu ou Internacional e a Liga Europa era o desígnio, o objectivo claro, e quase a consideravam já no papo. Empurrados com estrondo flamengo, de tal dança andaluza, ao som de sevilhanas castanholas, para fora de todos os "palcos onde brilha o futebol europeu", agora ainda lhes resta uma esperança de agarrar o 2º lugar na Liga portuguesa para voltar a entrar directamente na Europa do Futebol dos milhões. Entretanto, lá se vão animando dizendo num consolo amarelo para dentro de portas e para fora das janelas, de que ainda sobram as Taças - a de Portugal, e c´um caneco, a outra, a tal de que Jorge jesus apreciava e com que se contentava e a ele parecia confiada, quando tudo perdia, a apelidada jocosamente pelo FCP de Taça de Folheta. Ora tudo indica no presente inferno dos dragões, de que tal "lata virou Troféu", e já ganhou para o clube azul e branco maior brilho e outro estatuto. Como os tempos mudam e as vontades se acomodam. E já são muitos os portistas que as desejam para as exibirem no seu cristalino museu. "E esta heem"!