É preciso que haja alguém que traga à tona do presente e à memória dos
acontecimentos, nesta infeliz data do desaparecimento do negro mais amado de
Portugal, para dizer que o seu mar de êxitos não está coberto só de rosas.
Eusébio da Silva Ferreira, moçambicano de berço e de mama, e de bola de trapo,
português de identidade, de eleição, agora de roupa e de pão garantido, que
começou a construir a sua carreira como homem em busca de melhor vida através
do desporto, mais conhecido por, Eusébio, não conheceu sempre dias de glória.
Apesar de ter percorrido os maiores sucessos na arte que abraçou e que fez dele
um dos maiores campeões do mundo, ídolo, lenda e Rei, nem sempre foi feliz,
porque no seu caminho apareceram quem lhe colocou algumas pedras que o fez
mudar de rumo e o quiseram depor do trono quando o seu reinado parecia
consolidado. Todos sabem que não há ninguém que goste de andar de cavalo para
burro, e no futebol seja em que escalão for, aprecie passar da equipa A para a
B, ou até ser convocado para se sentar no banco de suplentes. Com o
"Pantera Negra, cognome vindo de fora e com que foi "tatuado" na
pele universal, também experimentou o sabor amargo do isolamento, e das
despromoções. É hoje mais do que ontem, necessário, ir ao baú das más práticas
ou dos actos silenciados, buscar o desagradável, por mais incorrecto que isto
possa parecer nesta hora funesta e alagada em pesar. Eusébio, que construiu a
sua imagem mítica num tempo em que não haviam jornais desportivos e diários
como hoje há, que fazem de um qualquer parafuso que jogue à bola a torre Eiffel
em ouro, sofreu com certeza com o desdém ou abandono a que o submeteram, quando
o seu clube de adopção e coração, o riscou do seu "habitat", do seu
emblema, e dos interesses estranhos das presidências passadas do SLB. que hoje
lhe presta sentida homenagem e honras mais do que merecidas, e às quais o País
se juntou, que o levaram a ter que emigrar e a frequentar outros balneários e a
equipar outra cores de clubes menores que lhe diminuíram a chama e a áurea
erguida com tanto esforço, suor e talento. O "Pantera Negra", teve
que rumar até Tomar e até Aveiro, para aí nos clubes locais dar continuidade ao
seu ofício, envergando uma camisola estranha,exibir a sua arte, marcar a sua
presença, fazer prova de vida e sangrar o seu talento histórico. Quase ninguém
dá a cara por tais decisões, por tais castigos aplicados ao celeste atleta, bem
como falham as explicações claras que nos ajudem a compreender e à geração
actual e jovem, esse silêncio do vazio triste, esse período que o clube
encarnado do SLB provocou cruelmente e com que privou de maior felicidade, o
mais soberbo jogador de Portugal de todos os tempos - Eusébio, o Pantera Negra.
Essa mágoa, também foi a enterrar com ele, mas a nossa memória provoca-nos a
interrogação e causa-nos tamanha perplexidade de como foi possível ter
acontecido uma mancha assim no clube da Luz, com tanto mau gosto e de reparação
tão tardia. Mas foi também assim que o Rei se tornou um herói ao encontro com um
deus maior.
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