Um rapaz amigo com idade que ainda não lhe permitia ser
doutor, não obstante carregar debaixo do braço quatro grossos volumes, entrou
pela minha oficina dentro e com habitual confiança que sabia poder usar e só
depois de dizer bom dia, atirou – ‘’Ò sr. Abílio (nome fictício) diga-me lá,
que eu ando a cismar no sismo (ele sabe que gosto do trocadilho), você que sabe
umas coisas, se o que aconteceu no Haiti tivesse ocorrido por cá, crê você que
estaríamos prontos a responder a idêntico drama com meios mais eficazes? A
pergunta é mais curta do que a resposta que merece, e por isso fiz de conta que
não ouvi bem mas foi só para ganhar tempo para reflectir sobre ela.
Respondi-lhe ou tentei apanhar o melhor jeito para uma possível e clara
explicação. – ‘‘Sabes, por Portugal a que te referes, suponho, tudo é bom desde
que não aconteça, caso contrário estamos feitos. Vê lá tu que basta a época dos
fogos florestais para incendiar os ânimos e alvoroçar as chefias do organismos
responsáveis e a confusão é mais que muita. Ou são os Bombeiros que não chegam,
ou que não têm equipamento adequado a que se lhes junta a crónica falta de
água, os helicópteros que estão em terra inoperantes, a limpeza das matas que
não é feita, os acessos difíceis, etc. No inverno, como sabes, há zonas do país
aonde a neve cai e como sabes também a neve é macia e leve como algodão doce,
que mesmo que nos caia em cima não mata. Mas basta meia dúzia de flocos para
obstruir as vias que logo nos chega a notícia que não há máquinas que os
removam. A partir daqui já ninguém se entende. Ou é o autarca que se ausentou
para o carnaval tropical ou para uma feira de fumeiro lá nas redondezas e os
bombeiros desconheciam. Ou é o governador civil que está incontactável e quando
aparece é de fato e gravata. Não estás a imaginar o gabinete oficial deste
representante equipado com protecção adequada de capacete e galochas e ele de
piquete às portas dos incêndios ou das inundações. Como sabes eles aparecem no
fim prontos para o discurso que leva à recolha dos louros’’.
O jovem mantinha-se atento às minhas reflexões que denunciavam a experiência do tempo vivido e ao mesmo tempo ele dizia – continue. E continuei. ‘’vou-te lembrar ainda as cheias provocados pelos riachos e ribeiros, o lixo que se mistura porque todos sujam e ninguém limpa, os castelos, as muralhas e as fortalezas desmoronadas que desabam à séculos e cujas pedras que lhes pertencem já entraram na construção dos muros das vivendas dos autarcas ou empreiteiros locais.’’
Até aqui o rapaz não tinha interrompido até que – ‘’ Ò sr. Abílio (nome fictício), mas olhe que se nós não somos lestos a construir, também a deitar abaixo (no que somos bons, juntei eu) não resolvemos melhor. Veja só o que se passa com o ‘’prédio Coutinho’’ ali no Minho, que não há terramoto que o deite por terra. Mas aí, disse eu, passa pelas leis dos tribunais o que torna tudo diferente. Agora o que tu queres saber é sobre a nossa capacidade de resposta às catástrofes por cá. Digo-te que não temos meios nem gente capaz. Olha só que sem nos calhar nada parecido com o caos e a miséria do povo caribenho, atenta na fome que graça entre nós. Queres inferno maior do que este só mesmo o que aconteceu naquela ilha que não lhe vale ter por vizinho o país mais rico do mundo mas também desigual quanto baste. Se por lá, pelo Haiti, que não há petróleo nem diamantes e floresta sequer, demora a ajuda e vai demorar, para lá dos meus dias, por cá que é o que queres saber não seria melhor. Ainda por cima o vizinho da fronteira que nos separa não está tão próspero como seria desejável e a ajuda vinda seria a possível. Aqui também não há petróleo como disse aquele dirigente desportivo. E se não havia para ele, para nós muito menos. Como vês, não precisamos de factores naturais para deitar tudo abaixo. Portugal está visto é um país histórico desde há muito e se nos acontecesse uma tragédia semelhante só te digo que tínhamos o inferno a dobrar. Nós somos velhos sobreviventes a catástrofes. Tal como a esses infelizes ilhéus o nosso futuro está também adiado até que a terra nos cubra. Portugal tem muitos górgonas com vocação para Baby Doc que não deixa pedra sobre pedra e por isso este país deu em pedreira. Nisso o nosso vizinho de fronteira é melhor que nós. Como em tudo, disse ele intervindo. Em tudo não, retorqui. Em paleio nós somos bons’’ – e isto podia ter sido dito por qualquer um. ‘’ Mas isto é como tudo, ossos da vida meu caro - Diga antes ‘’destrossos’’ da vida. (eu percebi o trocadilho)
- É, tens razão. No caso estás certo.
Ao rapaz em silêncio já baralhado pelo barulho que as palavras fazem, principalmente as inadequadas, perguntei-lhe se estava cansado e se queria pousar os livros, aonde não está registado este conhecimento que só a vida de muitos anos dá enquanto eu procurava rematar ou concluir o desafio que ele lançou quando aqui entrou e de maneira a que ele saísse confortado com a minha dissertação e apropriada à sua idade que não dava espaço para apreensões nem convinha.
- O que andas a ler, perguntei?
- Neste momento estou com a ‘’Escrava de corda ao pescoço’’ a que se seguirá a ‘’Escrava na corda bamba’.
- E que tal?
- São como a neve e o algodão, macios e leves.
- E essa escrava quem é?
- É Portugal - respondeu seco.
Mas como já se fazia tarde, ele disse: Então até logo, enquanto pegava nos livros.
- Já vais?
- Eu volto. Depois continuamos.
Ele despedia-se e eu voltava também a tentar meter o tempo certo no relógio que uma cliente deixou para arranjo. O tempo tinha parado dentro dele. Deve ser da pilha…deve ser!
O jovem mantinha-se atento às minhas reflexões que denunciavam a experiência do tempo vivido e ao mesmo tempo ele dizia – continue. E continuei. ‘’vou-te lembrar ainda as cheias provocados pelos riachos e ribeiros, o lixo que se mistura porque todos sujam e ninguém limpa, os castelos, as muralhas e as fortalezas desmoronadas que desabam à séculos e cujas pedras que lhes pertencem já entraram na construção dos muros das vivendas dos autarcas ou empreiteiros locais.’’
Até aqui o rapaz não tinha interrompido até que – ‘’ Ò sr. Abílio (nome fictício), mas olhe que se nós não somos lestos a construir, também a deitar abaixo (no que somos bons, juntei eu) não resolvemos melhor. Veja só o que se passa com o ‘’prédio Coutinho’’ ali no Minho, que não há terramoto que o deite por terra. Mas aí, disse eu, passa pelas leis dos tribunais o que torna tudo diferente. Agora o que tu queres saber é sobre a nossa capacidade de resposta às catástrofes por cá. Digo-te que não temos meios nem gente capaz. Olha só que sem nos calhar nada parecido com o caos e a miséria do povo caribenho, atenta na fome que graça entre nós. Queres inferno maior do que este só mesmo o que aconteceu naquela ilha que não lhe vale ter por vizinho o país mais rico do mundo mas também desigual quanto baste. Se por lá, pelo Haiti, que não há petróleo nem diamantes e floresta sequer, demora a ajuda e vai demorar, para lá dos meus dias, por cá que é o que queres saber não seria melhor. Ainda por cima o vizinho da fronteira que nos separa não está tão próspero como seria desejável e a ajuda vinda seria a possível. Aqui também não há petróleo como disse aquele dirigente desportivo. E se não havia para ele, para nós muito menos. Como vês, não precisamos de factores naturais para deitar tudo abaixo. Portugal está visto é um país histórico desde há muito e se nos acontecesse uma tragédia semelhante só te digo que tínhamos o inferno a dobrar. Nós somos velhos sobreviventes a catástrofes. Tal como a esses infelizes ilhéus o nosso futuro está também adiado até que a terra nos cubra. Portugal tem muitos górgonas com vocação para Baby Doc que não deixa pedra sobre pedra e por isso este país deu em pedreira. Nisso o nosso vizinho de fronteira é melhor que nós. Como em tudo, disse ele intervindo. Em tudo não, retorqui. Em paleio nós somos bons’’ – e isto podia ter sido dito por qualquer um. ‘’ Mas isto é como tudo, ossos da vida meu caro - Diga antes ‘’destrossos’’ da vida. (eu percebi o trocadilho)
- É, tens razão. No caso estás certo.
Ao rapaz em silêncio já baralhado pelo barulho que as palavras fazem, principalmente as inadequadas, perguntei-lhe se estava cansado e se queria pousar os livros, aonde não está registado este conhecimento que só a vida de muitos anos dá enquanto eu procurava rematar ou concluir o desafio que ele lançou quando aqui entrou e de maneira a que ele saísse confortado com a minha dissertação e apropriada à sua idade que não dava espaço para apreensões nem convinha.
- O que andas a ler, perguntei?
- Neste momento estou com a ‘’Escrava de corda ao pescoço’’ a que se seguirá a ‘’Escrava na corda bamba’.
- E que tal?
- São como a neve e o algodão, macios e leves.
- E essa escrava quem é?
- É Portugal - respondeu seco.
Mas como já se fazia tarde, ele disse: Então até logo, enquanto pegava nos livros.
- Já vais?
- Eu volto. Depois continuamos.
Ele despedia-se e eu voltava também a tentar meter o tempo certo no relógio que uma cliente deixou para arranjo. O tempo tinha parado dentro dele. Deve ser da pilha…deve ser!

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