terça-feira, 5 de abril de 2011

A "sueca"


A vida está difícil. Não está para brincadeiras, está mesmo pela hora da morte. As expressões  bem escutadas, porque repetidas de tão sentidas, são diversas, e no entanto dizem todas o mesmo. Todos os passos que se dão para fora de casa saiem-nos caros. Os “tostões” contam-se , recontam-se, e sente-se o engasgue que nos revolta. A raiva cresce por não sabermos como dar a volta a esta situação. O melhor, é esquecer  os momentos de gozo que o passado nos proporcionou, e juntarmos-nos à sueca debaixo do arvoredo, no banco do jardim, no largo da feira, na praça pública que já foi mercado, e não pensar mais na confusão actual, no lamaçal que nos meteram, que nos angustia e de que não somos capazes de saír, sem ser através de nos manterem na penúria, esmagados pela frustração e espremidos pela tristeza. Somos velhos de tenra idade que vagueiam num túnel curvado e cheio de sombras, tantas quantas as promessas que nos fazem, dizem uns, estamos velhos e já não há muito para andar, dizem outros. Por isso estes bancos de ripas gastas, retorcidas, descascadas, ao ar livre servem para passar o tempo e uma sueca vem mesmo a calhar. Quatro tristes e um som de violino dispostos em cruz chegam para fazer a festa até que a tarde se esgote e a hora do caldo apareça a fazer de ceia. Acabaram-se os gastos nos pequenos prazeres que nos acompanharam desde cedo. Já não há idas ao cinema, jornais, nem cavaqueiras nos cafés com uma “bica” à mistura. Discute-se a bola mais pelo que se ouve do que pelo que se vê. Os canais cabo são para os ricos, e nos estádios não há lugar para nós porque a carteira de bolso está fora de jogo. Um baralho de cartas sempre é mais barato, e a companhia dos amigos no infortúnio ainda não paga imposto. Basta a sua disponibilidade, que se agradece, enquanto ajuda e alivia “o caco”, que é em cacos que o país está feito e nós também. Agora só há pachorra para a “bisca lambida” e a seco, que mesmo a água em garrafa custa como combustível fóssil, só trazida da torneira da casa, que ainda não foi cortada, que a luz já a dispensamos há muito e aqui com Sol também não é precisa. Vê-se bem o naipe de trunfo que corta o amargo que sentimos e nos obriga a assistir, senão, somos penalizadoa com quatro jogos, embora perder é coisa a que estamos habituados. Quatro, são quantos são precisos para uma partida bem entretida debaixo do arvoredo, á sua sombra, entre palavras que tentam disfarçar a melancolia que nos cerca, quase sufoca. O ar está ameno, não é do ar este aperto na garganta, e gravata não uso. O transistor a pilhas avisa-nos que estão vinte e quatro graus. Suportável. Esta vida é que já não tanto. A sueca a este preço é que se aguenta ainda, mesmo a precisarmos de baralho novo que este está muito coçado como colarinhos gastos e fora de moda, e acossados nós também, mas não podemos fazer nada a não ser levantarmos-nos de novo sobre quem nos exauriu a vida, a esperança  e o sonho de ter um final feliz, mais descansado, e expulsá-los a todos, privá-los do saque continuado e fazê-los pagar bem caro por isso. Não sei se temos energia para tal cometimento. Vontade não falta. Bom! Faz-se tarde e ainda tenho que ir ter com a Ingrid, que pediu-me a acompanhasse à Segurança social. Bela mulher. A beleza nórdica é o que nos vai valendo, mas tal como nós deve ter saudades do cinema. Retirou-se. Ainda tentou de novo a sua inserção, mas sem rendimento, e como nós vive agora do rendimento mínimo. A vida não está fácil para ninguém.Esta é a última que jogo. Eu volto mais tarde e continuamos se estiverem por aí, se ainda houver luz e algum futuro.



                                  

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