quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Porta selada


                                                         Porta selada

 Penso "entristernecidas" vezes:
e se eu teimasse ir por esta viela
que se abre e desce junto à minha porta,
e tinha sempre à janela
onde se demorava a minha vizinha a espreitar
como quem espera pelo carteiro?
E de cada vez neste tímido pensar,
e saía trémulo calçada fora,
a minha vizinha suave e bela
soltava o seu olhar matreiro,
mas deixava o seu decote
a esvoaçar como seda no parapeito
onde as pombas iam poisar;
Eu descia sem olhar aberto
para não dar nas vistas,
e fazia de conta que mais nada havia,
 que mais ninguém por ali morava,
 e onde só as pombas se demoravam
num namoro terno de encantar;
- E era assim mal o dia nascia.
E eu, quando cansado de esperar
substituía o carteiro que não chegava,
e ao passar, deixava-lhe um bilhete de cor
esmagado na porta que nunca se abria,
 e nele declarava-lhe o meu ignorado amor!

                                                     

-*(este Poema está destinado à EditrªChiado, p/publicação em 05Outbº- "XI vol.Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea")

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