sexta-feira, 25 de maio de 2018

Deuses!


- Quando era rapaz de escola, com sacola de serapilheira às costas, e aonde enfiava a lousa das contas, estava obrigado a frequentar a catequese. Nesta matéria, o padre da freguesia, era o todo-poderoso, e quem regulava comportamentos, com práticas suspeitas. Ninguém ousava pôr a sua autoridade em causa, assim como a do professor primário. Um e outro, extravasavam as suas competências, e impunham castigos à mínima análise que nos fosse desfavorável. Nenhum pai, tinha no reduto deles, interferência, ou só tinha quando era chamado a tomar conhecimento das tropelias do filho, e para cair nas suas graças, acentuava-lhe as penas, por vezes. O padre usava para castigar, da arma que tinha mais à mão - a unha. Num "acto de piedade", metia-nos atrás da orelha a córnea que lhe sobrava da ponta do dedo polegar, e agitava-nos a cabeça de um lado ao outro, até sangrar, e mandava-nos retomar o lugar da aprendizagem. O professor do básico, aquecia-nos as mãos com a palmatória até a gente não saber o que lhes fazer, se metê-las aos bolsos, se arrefecê-las na parede ou no tampo da secretária, que suportava a lágrima. E pedíamos de seguida para ir lá fora, ao urinol. Naquele tempo também o médico e o regedor lá do sítio, eram autoridades temidas. Todos, cunhas importantes para os chegados com chouriços. O tempo deu a volta, a história muda, mas sempre connosco por dentro, com queixas. Hoje ninguém se assusta com aqueles personagens, e enfrenta-os até, estejam eles no altar ou nas áreas da saúde. O povo, soltou-se, e inverteu os papéis. Neste novo tempo novo, se o padre sai fora do ritual aceitável e da consentida missão que lhe está destinada, ou se nega a prestar serviço, já os pais e avós, vão pedir-lhe satisfações e por vezes, pregam-lhe uns sustos, que nem stª Bárbara, nem s.Lucas, os protege. Como o mundo mudou e os deuses de outrora, caíram, e são hoje apenas santos com pés de barro, com direito ao respeito, se o merecem naturalmente. Ainda assim, privilegiados. Haja Deus...mas só um!

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