- Quando era rapaz de escola, com sacola de
serapilheira às costas, e aonde enfiava a lousa das contas, estava obrigado a
frequentar a catequese. Nesta matéria, o padre da freguesia, era o
todo-poderoso, e quem regulava comportamentos, com práticas suspeitas. Ninguém
ousava pôr a sua autoridade em causa, assim como a do professor primário. Um e
outro, extravasavam as suas competências, e impunham castigos à mínima análise
que nos fosse desfavorável. Nenhum pai, tinha no reduto deles, interferência,
ou só tinha quando era chamado a tomar conhecimento das tropelias do filho, e
para cair nas suas graças, acentuava-lhe as penas, por vezes. O padre usava
para castigar, da arma que tinha mais à mão - a unha. Num "acto de
piedade", metia-nos atrás da orelha a córnea que lhe sobrava da ponta do
dedo polegar, e agitava-nos a cabeça de um lado ao outro, até sangrar, e
mandava-nos retomar o lugar da aprendizagem. O professor do básico, aquecia-nos
as mãos com a palmatória até a gente não saber o que lhes fazer, se metê-las
aos bolsos, se arrefecê-las na parede ou no tampo da secretária, que suportava
a lágrima. E pedíamos de seguida para ir lá fora, ao urinol. Naquele tempo
também o médico e o regedor lá do sítio, eram autoridades temidas. Todos,
cunhas importantes para os chegados com chouriços. O tempo deu a volta, a
história muda, mas sempre connosco por dentro, com queixas. Hoje ninguém se
assusta com aqueles personagens, e enfrenta-os até, estejam eles no altar ou
nas áreas da saúde. O povo, soltou-se, e inverteu os papéis. Neste novo tempo
novo, se o padre sai fora do ritual aceitável e da consentida missão que lhe
está destinada, ou se nega a prestar serviço, já os pais e avós, vão pedir-lhe
satisfações e por vezes, pregam-lhe uns sustos, que nem stª Bárbara, nem
s.Lucas, os protege. Como o mundo mudou e os deuses de outrora, caíram, e são
hoje apenas santos com pés de barro, com direito ao respeito, se o merecem
naturalmente. Ainda assim, privilegiados. Haja Deus...mas só um!
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