quarta-feira, 2 de março de 2016

"Coisas da nossa terra"

A cidade de Penafiel, encontra-se de alto-abaixo toda engalanada. Adivinha-se logo que vai entrar em festa. Festa rija certamente, a avaliar pela distribuição dos adereços coloridos e flamejantes. Esta Terra, que sempre soube receber, ao que sempre se ouviu, os forasteiros, e maltratou os seus naturais. Terra, aonde as gentes aqui nascidas nunca beneficiaram dos mesmos atendimentos enquanto filhos, como os que foram facilitados aos seus enteados. A uns foram dadas as oportunidades de se instalarem por cá com bons empregos, bons negócios, favorecimentos misteriosos vários que lhes permitiram bem-estar e até o sucesso, e demais coberturas. Gente de fora foi sempre muita querida e mais bonita. E então se tivesse duas pernas bem torneadas, então o negócio fechava-se logo ali. Os indígenas, esses buscaram desde há anos, trabalho, emprego, a partir das estações de transporte que os levasse ao ganha-pão que aqui lhes fora sempre negado, ou dificultado. Se o zé do burgo não era oriundo de apoios fortes e reconhecidos não tinha hipótese de entrar em lado algum, a não ser a tomada de posse do varrisco ou como apanha-lixo. Escorraçado para outros lugares, era o seu destino. O povo aprendeu depressa que esta cidade foi sempre mãe dos estranhos, e madrasta para os filhos. Pai pobre e socialmente afastado, sem ligações perigosas aos capatazes e senhores das cadeiras municipais, instituições de crédito, finanças, cooperativas, tribunais, bibliotecas, correios, unidades de saúde, hospitalares, lares e albergues, e até sem vocação para bombeiro ou para lambe-botas, só dava aos filhos as condições marginais e só lhes podia animar a partir no comboio ou na camioneta que por cá existia ou por cá passava. Foi assim e assim continua embora mais suavizado, já que a política partidária veio alterar alguns factores de avaliação de qualidades e valências dos aspirantes a arranjar trabalho ou emprego, e por aqui continuarem a viver. Mas o que é preciso é festa. E ela aí está dependurada em cada candeeiro, montra, pela avenida, por jardim público, por todos os cantos e esquinas. Ma o que eu quero dizer fundamentalmente, é que a cidade se cobriu de vermelho e branco. E tal bicolor preparou-a, creio eu, embora a intenção não seja esta, para a festa maior que se pretende venha a acontecer. O vermelho e branco predominante, parece querer anunciar que o Spor Lisboa e Benfica caminha para se repetir Campeão da Liga de Futebol em Portugal. E se assim acontecer, será aqui o lugar certo aonde muitos portugueses poderão aproveitar para festejar o título e ao mesmo tempo visitar a cidade que comemora o seu nascimento em 1770 e foi com certeza mais feliz que os que nasceram nas margens dela e perto do desprezo, e que com ela  tiveram que levar e com os que a governaram sem pudor, e com interesses de complexidade enriquecedora para si mesmos e só para os da suas cores. Infelizmente, tal situação ou comportamentos nestes tons, não são exclusivo desta "nossa e tão querida cidade". Viva o vermelho e branco!


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