quarta-feira, 30 de março de 2016

A Selecção do nosso engano

- Os jornais nacionais rejubilam com a vitória modesta da nossa Selecção de futebol no jogo em Leiria contra a Selecção B da Bélgica. Jogo em terreno luso que estava para ser disputado em casa do adversário, e que foi alterado por via dos atentados terroristas. Mas vamos ao jogo, que é ao que vim. Os jornais da paróquia que relatam a vitória pela margem mínima, usam títulos, como por exemplo -"verdes anos", e ilustram a página com atletas que em partida anterior foram um desastre, e contra uma outra Selecção sem os pergaminhos daquela que nos defrontou em Leiria em tempo de Páscoa e de luto. É incrível que não façam um comentário sobre a qualidade da equipa que defrontamos, escamoteando que tal Selecção que nos visitou estava decepada dos seus melhores oito titulares, o que nos facilitou a tarefa, e agora nos faz embandeirar em arco, intitulando a nossa vitória como se de um grande feito se tratasse. Outro jornais colam parangonas como,- "Agora com Cabeça", e acrescentam,- "Vitória sobre o nº1 do ranking FIFA...". É com engodo destes que os portugueses são embalados e conduzidos ao fracasso, quer seja no desporto, quer seja nos contos das contas governamentais. Quando a realidade supera a ficção então aí vemos e sentimos de imediato o engano em que nos enfiaram e sem podermos defendermos-nos, de modo a evitar um maior fracasso, uma maior derrota. Ficamos sem defesa. A Selecção de futebol, jogou o que sabe e é pouco, tendo em conta os objectivos a que se propõem alcançar, e com alguma complacência da equipa contrária, que não esboçou grande esforço nem interesse para sair da recriação que demonstrou estar a fazer. No entanto os nossos comentadores de bola, escrevem e outros relatam aquilo que é do domínio do desejo e do sonho. Nenhum tem coragem ou visão, de friamente contornar a paixão nacionalista e escrever a nossa fragilidade que não dá para ir longe. A Selecção Búlgara que não valia um chavo, fez-nos ver e sentir isso, e a Selecção Belga com as ausências assinaladas, demonstrou que, mesmo com os que se mexeram em campo, a fazer com que o treino parecesse um jogo mais sério e a contar para alguma coisa importante, pela qual valesse a pena correr ou dar o litro. Não. Jogou para se entreter e cumprir calendário, dando com isto algumas pistas ao seu técnico para a constituição da que virá a ser a sua Selecção e da Bélgica nº1 da FIFA. O mesmo já não poderá dizer o nosso, pois anda muito confuso com tanto talento de que dispõe para formar o onze mais eficaz e os 23 que hão de acompanhá-lo. É assim com actos grandiosos como estes, que se enganam os tolos, mesmo sem papas e difíceis bolos... golos quero dizer. A desilusão toma forma, quando moldada por tais especialistas em paixões e tácticas serôdias para parolo ler, mais cedo ou mais tarde!

                                                                                  


sábado, 26 de março de 2016

As mãos, a pena e o sangue

Deixem-me ser patriota quanto baste, envergando contudo o fato à prova de bala. Doze portugueses, entre milhões, que andavam pelo mundo fora à procura de trabalho que resultasse em pão que alimenta famílias do peito e do sangue, morreram na estrada num acidente aparatoso, estúpido como são quase todos, e doloroso como nem Deus devia querer. Eram doze. E no meio dessa tragédia que eliminou de imediato tal magote de gente humilde, trabalhador, contavam-se pessoas muito jovens, com muita esperança de vida pela frente. Uma tragédia é sempre uma tragédia, com mais ou menos horror, independentemente de conter cadáveres sem idade para se meter à estrada. Mas a vida difícil que cada um vive à porta de casa, de um país secularmente pobre, expulsa-os para longe e a tanto os obriga. Procurar sustento. Porém, as notícias em Portugal, relatam repetidamente e até à exaustão, outros acontecimentos, que não sendo de minorar e são de alerta, não deviam sobrepor-se nesta hora, à tragédia sofrida por mais de um terço dos mortos - que recolhiam a casa vindos da Suíça, para passar no seio da família, uma festa feliz, a Páscoa em Portugal, cheios de fé e de muita alegria - do número total de mortos nos atentados na Bélgica, que merecem também respeito rigoroso. Mas a Comunicação Social faz contas também, por rosários diferentes do nosso, que trazemos entre-mãos. Dá relevo e acompanha a política assassina que os governos ergueram e da qual recolhem agora os frutos semeados pelos Salah Abdeslam &Cª, por terrenos inesperados e sempre debaixo do terror da suspeição, numa de guerra de audiências, por vezes, ou se preocupa mais em dar notícia da beleza do Ronaldo, do que veste e calça aqui e despe por Marrocos e onde andam outros camelos, ou da deslocação do seu “boneco em bronze” na ilha bananeira. Para que a tragédia não se fique só por isto, agravêmos-la com a junção dos mais de 500 emigrantes lusos perdidos pelo Luxemburgo que passam as agruras do inferno e que têm de recorrer, enquanto não soçobram de todo, às cantinas sociais nas Embaixadas e (des)Consulados, por falta de pensões condignas, e vítimas de emprego precário, aonde vão pedir pão e outros apoios, que os não há ou onde só encontram o vazio. Deixem-me ser patriota. Eram doze os portugueses que pereceram estropiados na estrada maldita, e nenhum deles andava a por bombas de destruição e de morte, mas antes, andavam a colocar pedra sobre pedra a construir e a reconstruir cidades e pontes, que une povos e culturas e a tornar possível um mundo melhor para todos. É deles que devemos falar já e agora, e das condições que nos são dadas para sobreviver pelo nosso país cinzento e a navegar à vista, e em risco de encalhar a qualquer abalo. Nesta Páscoa, já nada será igual em muitos lares e nessas mesas, vão estar lugares por preencher e lavadas em lágrimas. Oremos por eles!

                                                                       

quarta-feira, 23 de março de 2016

Era a guerra meus Deus, era a guerra...!

Bom! deixem-me lá também falar do mesmo. Sim! daqueles dramas de que tantos palram e nada acrescentam. Peritos, Professores, Especialistas em fins de mundo, Estrategas balofos, presidentes de Observatórios de Segurança e Criminalidade Organizada e Terrorismo, Autores de Teorias sobre Primaveras Árabes, Editores de Manuais de Paz e de Guerra, Rogeiros, Anes, Severianos, Ângelos, Pachecos, gente que até fala francês, flamenguês e polilinguês, que sabe tudo sobre xiitas, sunitas, iemenitas, semitas, islamistas, suditas, salafistas, outra tantas tribistas, mais de doze e mais, desde os otomanos e de antigos impérios ocupados pelos cruzados, esses malvadistas. Sabem de tudo menos de terroristas. A televisão chama um, chama mil e um, e todos não valem nada. Valem audiências, talvez. Nenhum deles sabe sequer o que é um tapa-chamas, um guarda-mato. Nunca ouviram o que é limpar o cú da galinha de uma G3. Se calhar não conseguiriam enfiar uma cavilha numa metralhadora. Apenas identificariam o ponto de mira, que aponta a tesouraria para receber a avença que o canal lhes paga para demagojar. Exceptuando alguns generais que se aproximam com autoridade e com o verbo correcto a aplicar nestes assuntos porque já os vivenciaram, os convidados nos debates das TVs, só dizem banalidades, notas ridículas, tiros nos pés. Cheios de vontade para nos animar a aguentar o caos. A perpetuar a repetição dos ataques que assolam território europeu. Solo de pecadores e culpados, é verdade. Mas vítimas das suas governações que têm mais olhos do que soluções para os coitadinhos dos refugiados e migrantes, do que para os seus compatriotas decepados nos atentados quase consentidos, ou animados por tanta mediocridade na acção, nas medidas eficazes a lançar, a organizar, a perseguir, a esmagar de uma vez por todas, concertadamente e em força. Uns destes iluminados que leia este desabafo, vêm logo dizer que não. Não. Esse não é o caminho. O caminho é chamá-los para dormirem junto de nós. Vesti-los, lavá-los, dar-lhes roupa, mesa e cama lavada, telemóvel de última geração, i-pad, i-pod com carateres e fantasias arabescas. Integrá-los. Com o nosso dinheiro. Eis aqui a solução - Integrá-los. Bonito não é? Mantenham-se todos a aplicar estes processos e abram covas. Eles, os terroristas ainda só vão no pote 1. Passarão ao pote2 quando tirarem de lá o adversário que se seguirá para este jogo cego e cobarde. Não abrandem o folclore que iniciaram. Mandem condolências às famílias, dos que rastejam feridos a sangrar e amputados no nosso território, às famílias de luto, aos órfãos desconhecidos. Mantenham as luzes nos monumentos, lindos de morrer, e não apaguem as velas nem luzes que os tornam ainda mais atraentes e que homenageiam o país vítima e a hipocrisia que paira. E quando as apagarem, desliguem só as cores que deixam lugar às próximas, que identificarão o país que se segue, mas mantenham sempre a cor vermelha. Bem brilhante. Essa é a cor que será comum a todos e a todas as bandeiras esfarrapadas pelas bombas. Ela representa o sangue derramado nas gares, aeroportos, estádios, praças, locais de culto, etc. O negócio não pode parar e deve dar lugar a outros que destes se erguem. Não se esqueçam das flores. De preferência com cores sortidas. Alimentem um negócio de morrer! Que pena eu tenho por não pertencer a nenhum desses hipócritas e cínicos ramos!


segunda-feira, 21 de março de 2016

Jonas. O filho da águia!

Numa breve consulta biblica, ficamos a saber de que "Jonas", filho de Amitai, era galileu e o seu nome significa, "pomba". No seu livro, relata os acontecimentos com detalhes, "buscando o caminho da glória de Deus, e não a sua". Este profeta da tribo de Zebulom, disse numa das suas pregações,"que Deus não quer que ninguém se perca, mas deseja que todos venham ao arrependimento". Mas isto dizia há muito, muito tempo. No domingo dia 20 deste março primaveril, do ano da graça de 2016, outro Jonas, nascido em Bebedouro no Brasil, filho de Ismael, e actual artilheiro-mor do clube da águia alfacinha, quando faltava um minuto para o fim de mais um capítulo do jogo do calendário desportivo nacional, e em que participava ali para os lados da Boavista, clube da cidade do Porto, e não aquele com idêntico nome, que se situa em Saquarema no Rio de Janeiro, e que tem à porta do estádio, uma pantera negra com ar agressivo, desferiu um golpe rude, de misericórdia, que provocou um desfecho que rasgou o mar de esperança que já se vivia em Alvalade - clube que também ostenta um bicho feroz, parecido com o da equipa axadrezada, e com o domador das redes "facebocais"- Um leão chamado Bruno. Este golpe apocalíptico, tocado por Jonas que acendeu a luz e elevou a alma benfiquista, autor do golo que deu a vitória mais difícil mas mais saborosa da Liga de futebol nacional a decorrer, aos seus adeptos, provocou no dono do facebook dos lagartos, a maior desilusão, e fez com que este mandasse, cancelar de imediato por essa via, a produção das faixas de campeão nacional, iam estas já a meio nos teares que não produzem artigos contrafeitos, mas só originais com os nomes correctos. Este Jonas, jogador da águia vitória, e não pomba galega, deitou por terra, num só momento, os animais felinos e ferozes- a pantera e o leão, com um tiro certeiro, colocando a bola no caminho da "glória de Deus e não a sua" como vem descrito no Livro dos livros. Embora continue a respeitar "que Deus não quer que ninguém se perca”, mas deseja que todos os Brunos da tribo lagarto, se arrependam das bocas que mandam no facebook verde e branco, repetida e desatinadamente!



sábado, 19 de março de 2016

A Anita no ballet

Em abono da verdade, somos levados a opinar e concluir que a especialidade dela, não eram os cozinhados. Logo a seguir à morte da avó do marido, ir a frio para a cozinha debaixo de tanta comoção, só podia dar grêlo lavado em lágrimas. A chama da dor era tamanha, que a Inspectora da polícia, só podia sofrer ao mínimo descuido, uma queimadela comprometedora, numa das mãos, e logo naquela que maneja qualquer botão, arma de fogo, e desliga o telemóvel, embora seja a mesma que dá à ignição e meta as velocidades e até contar a "massa" difícil de cozer e aceder. Uma cambada de especialistas da casa, que dela suspeitam, não devem perceber patavina de homicídios de velhas com graveto, mesmo que a vítima seja a avó do marido da ré e colega de oficio. E os juízes, que escolhidos a dedo para julgar casos tais, também devem ser daqueles que bem podiam estar no Brasil a julgar o Lula ou a tentar ilibá-lo. A nossa PJ, de cada vez que apresenta prova, esta é de imediato rejeitada por uns juízes-conselheiros, que acham tais provas insuficientes, inconsistentes, imprecisas, e querem ver o filme a rolar para trás, repetir tudo, para decidirem de acordo com as melhores intenções, das quais nós suspeitamos desde o início ao último tiro que a mesa do carregador da Glock consentia. A inspectora não era boa cozinheira, porque não fez faxinas na cantina da esquadra, e por isso se compreende que a queimadela que a mão apresentava, foi provocada na paz do domicílio, pelo estrugido a ferver ou a tentar segurar o cano de escape do carro em fuga. De salto em saltão, os juízes, parceiros-de-ocasião, não estão na posse de provas substanciais e suficientes, e por isso se preparam para ajudar a inspectora a enterrar mais fundo, a velha, que se recusava a dar o pilim ambicionado, e que não se deixava refugar. A cova já vai funda. Mas convém à classe corporativista cavar ainda mais, até que o corpo e o processo desapareça de uma vez, e deles se faça pó. Os meus conhecidos, deserdados e sem apoios, amizades, apadrinhados, sem advogados caros e influentes, estão todos na grelha por terem sido apanhados a desviar um sabonete marca"lava-jacto", para se lavarem, ou uma caixa de creme hidratante para acalmar uma ferida que sangra de pobreza. Outras feridas porém, nada disto precisam, porque há quem lhes passe a mão por cima, tudo acalme, e a cura acontece. Milagres da nossa Justiça, que tem muita "classe" e são uma família. Afinal, comem do mesmo Orçamento que o povo lhes garante. Esperemos que os juízes do STJ, saibam pelo menos contar os buracos todos, que o cadáver mostrava e que não esqueçam nenhum dos naturais. Os de nascença!
                 

terça-feira, 8 de março de 2016

"Festa brava e rija"

O Aníbal vai de calcantes. O Cavaco, solidário com o marchante com quem alinhou no trilho que nos esmagou e nos pôs a deitar os bofes pela boca, segue-o, guiado pela ilusão de que ambos fizeram história. Não se lhes conhece o trajecto, mas crê-se, tracem o caminho que traçarem, que não serão retidos em nenhuma fronteira de arame farpado, nem recorrerão a desviarem-se por mar em bote a esfrangalhar-se para atingir "a paz, o pão, habitação, saúde, educação", e o mais que o Sérgio nos cantara num cenário emigratório para idêntica selva, e muito antes das actuais multidões se terem de atirar aos mares de morte, ou de chegarem aos acampamentos lamacentos, gelados, desumanos, e que não se erguem no alentejo profundo nem nas praias aonde ambos passam férias à custa de proventos acumulados. Aníbal e Cavaco, não sabem caminhar sobre os pedregulhos que a vida tece, mas apenas galgar pé ante pé nas areias quentes e macias, sempre bem perto da comodidade do lar e dos bens conseguidos sem muito esforço reconhecido, e dos jeitos que os amigos proporcionaram durante largos anos. Aníbal e Cavaco formam com o senhor Silva um só personagem, que o povo quer ver de costas há muito, e no entanto foi esse mesmo povo que lhe deu a cadeira ilustre do Poder, e que por ele andou às turras. Matéria para especialistas freudianos, estudar. Hoje, sabendo-se da sua partida sem retorno, chegamos de novo ao 25 de Abril do ano de toda a esperança, já que enquanto estivemos sob o seu jugo, retrocedêramos ao 24,5 de 74. A juntar ao afastamento de Coelho e de Portas, respira-se agora em Portugal, um frio bom, porque oxigenado por um vento de mudança, e Abril reapareceu enroupado no ânimo que nos quer de novo esperançados. Preparemos uma festa brava e rija. Abramos champanhe, bebamos medronho com figos do algarve, que o momento é merecedor, e que o baile ou o corridinho dure até às tantas. Montemos uma tenda de refugiado e aonde caibam os seus amigos enriquecidos e laureados à socapa, em memória do pior governante e presidente que o antes e o depois de Abril de 74 nos impôs, e deixêmo-los nela repousarem para sempre. Para sempre não perdoados e jamais esquecidos!

   

sexta-feira, 4 de março de 2016

"O protesto em cuecas"

- O desinibido, despudorado e até corajoso José Manuel Coelho, deputado na Assembleia Legislativa da Madeira, num gesto de protesto exacerbado, quase se mostrou como veio ao mundo,em plena sessão e no uso da palavra, despindo-se da roupa que envergava e dos preconceitos que a ousadia lhe podia criar diante de tamanho agrupamento de olhares masculinos como femininos. Numa tentativa de por tudo a nú, e aquilo que o consome, decepcionou-nos, pois esteve muito longe de nos ter parecido, um verdadeiro Tarzan. A tapar-lhe as "partes" exibiu-nos umas cuecas pardas, vulgares, sem assinatura fashion, e não umas feitas de pele de leopardo, tal como o herói da B.D se apresenta e voa de ramo em ramo. Também os gritos que lançou, naquele lugar aonde ele transforma em selva graciosa, de vez em quando, não teve o condão de fazer reunir os animais ferozes que o reconhecem como líder e lhe obedecem nas horas difíceis em que o Rei da Selva os chama em seu auxílio. Talvez as imagens da cena na Assembleia Legislativa da ilha famosa e formosa, corram mundo e com esse conjunto de "takes" faça com que a Madeira venha mais tarde a beneficiar desta comédia, pois atraírá muitos mais turistas, e no fim do ano da luz e da cor, quem sabe, se não criará uma corrente de seguidores em chapéu de palha, chegados de outras selvas floridas, mas aonde já andam a viver cobertos apenas com uma parra e em tanga, como aqui se vive em Portugal há já muito tempo. Mais desiludidos e intrigados ficamos por não se ter visto bem, a quem pertencia a foto exibida na moldura, com que ele caminhou na rua e dela se serviu para se cobrir junto ao coiso. Se era da Procuradora da Justiça que o persegue, se da Jane sua preferida, ou se da Maria Luís Albuquerque preferida do Arrow Global/Banif, também ela despida de ética e de bom-senso! 


*publicado hoje dia 08/03/2016 in DNotícias e PÚBLICO 

quarta-feira, 2 de março de 2016

"Coisas da nossa terra"

A cidade de Penafiel, encontra-se de alto-abaixo toda engalanada. Adivinha-se logo que vai entrar em festa. Festa rija certamente, a avaliar pela distribuição dos adereços coloridos e flamejantes. Esta Terra, que sempre soube receber, ao que sempre se ouviu, os forasteiros, e maltratou os seus naturais. Terra, aonde as gentes aqui nascidas nunca beneficiaram dos mesmos atendimentos enquanto filhos, como os que foram facilitados aos seus enteados. A uns foram dadas as oportunidades de se instalarem por cá com bons empregos, bons negócios, favorecimentos misteriosos vários que lhes permitiram bem-estar e até o sucesso, e demais coberturas. Gente de fora foi sempre muita querida e mais bonita. E então se tivesse duas pernas bem torneadas, então o negócio fechava-se logo ali. Os indígenas, esses buscaram desde há anos, trabalho, emprego, a partir das estações de transporte que os levasse ao ganha-pão que aqui lhes fora sempre negado, ou dificultado. Se o zé do burgo não era oriundo de apoios fortes e reconhecidos não tinha hipótese de entrar em lado algum, a não ser a tomada de posse do varrisco ou como apanha-lixo. Escorraçado para outros lugares, era o seu destino. O povo aprendeu depressa que esta cidade foi sempre mãe dos estranhos, e madrasta para os filhos. Pai pobre e socialmente afastado, sem ligações perigosas aos capatazes e senhores das cadeiras municipais, instituições de crédito, finanças, cooperativas, tribunais, bibliotecas, correios, unidades de saúde, hospitalares, lares e albergues, e até sem vocação para bombeiro ou para lambe-botas, só dava aos filhos as condições marginais e só lhes podia animar a partir no comboio ou na camioneta que por cá existia ou por cá passava. Foi assim e assim continua embora mais suavizado, já que a política partidária veio alterar alguns factores de avaliação de qualidades e valências dos aspirantes a arranjar trabalho ou emprego, e por aqui continuarem a viver. Mas o que é preciso é festa. E ela aí está dependurada em cada candeeiro, montra, pela avenida, por jardim público, por todos os cantos e esquinas. Ma o que eu quero dizer fundamentalmente, é que a cidade se cobriu de vermelho e branco. E tal bicolor preparou-a, creio eu, embora a intenção não seja esta, para a festa maior que se pretende venha a acontecer. O vermelho e branco predominante, parece querer anunciar que o Spor Lisboa e Benfica caminha para se repetir Campeão da Liga de Futebol em Portugal. E se assim acontecer, será aqui o lugar certo aonde muitos portugueses poderão aproveitar para festejar o título e ao mesmo tempo visitar a cidade que comemora o seu nascimento em 1770 e foi com certeza mais feliz que os que nasceram nas margens dela e perto do desprezo, e que com ela  tiveram que levar e com os que a governaram sem pudor, e com interesses de complexidade enriquecedora para si mesmos e só para os da suas cores. Infelizmente, tal situação ou comportamentos nestes tons, não são exclusivo desta "nossa e tão querida cidade". Viva o vermelho e branco!