"Ó tempo, volta p´ra trás. Dá-me tudo o que eu perdi..."No
antigamente eram os pobres, sim, com pão suado mas garantido. "Abril"
aconteceu, malfadado como se sabe e logo se sente, e agora os pobres são mais
pobres e sem o pão na mesa, nem à partida nem à chegada, enquanto os ricos,
juntam ao seu, o ouro, que o pobre guardou de dedo em dedo, de mão em mão, e
que hoje vai vendendo a conta-gotas de loja em loja, e os ricos ficam mais
ricos. Antes de "Abril", o pobre sonhava menos, ou emigrava para
realizar sonhos. Depois de "Abril", e de tantas promessas e
verdadeiras mentiras, qualquer sonho actual desfaz-se num pestanejar, e num
abrir ou fechar olhos, vira pesadelo, preocupação, angústia - suicídio. Antes
da festa dos cravos vermelhos, eram côdeas, eram espinhos, e havia trabalho que
dava pão. Duro podia ser, mas era pão. Agora é só floreado murcho,compadrio,
conversa chocha ou da treta, encerramentos, abandono, desemprego e suicídio de
novo, ou filas de homens e mulheres em busca dele, por tudo quanto é cantina,
lar da misericórdia, paróquia, mão da caridade. Dantes era a emigração do pobre
e analfabeto. Hoje é a emigração de quem continua atado à pobreza, que parte junto
aos que se recusam a serem pobres, embora instruídos e cultos. Os envolvidos no
"Abril", teriam feito melhor, se tivessem ficado nos quartéis, a
descascar ervilhas, a cortar salsichas, a depenar galinhas, e nos intervalos
dessa guerra, a limpar as armas, que para nada serviram e nada trouxeram, que
nos faça mais seguros e mais felizes. Pobre, de barriga vazia, não come paleio
e de pouco lhe serve a liberdade filosófica, da burguesia e do capitalismo
"democrático". "Que saudades que tenho da minha alegre casinha,
tão modesta quanto eu"... mas que dela nunca ninguém me despejou, até que
"Abril" chegou. Hoje dormimos pior, cada vez mais estendidos debaixo
da ponte da miséria. Apetece sob o seu arco, cantarolar em tom de alívio,
"ó tempo volta p´ra trás..."
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