sexta-feira, 18 de março de 2011

Os bombeiros


" na guerra, determinação
   na derrota, resistência,
  na vitória, magnanimidade,
   na paz, boa vontade"          (Winston Churchil)

A imagem que ainda se retem ou perdura desta Corporação e dos homens estranhamente voluntários que a constituem, ou seja, dos seus elementos tambem chamados de soldados da paz, julgo que é reflexo daquela que nos vem da infância, da idade em que se quer ser com igual fantasia, polìcia, e nos dias de hoje jogador de futebol. Corporação nada exigente,  com recrutamento pouco escrupuloso, misturando-se um, exemplar, a outro, com registo comportamental pouco recomendável, que transitou expulso ou "aconselhado" à reforma  compulsiva no último ofício exercido, por simples antecipação à suspensão possível, ou ainda para ocupação dos tempos livres a troco de algum que dê para uma merenda reforçada. Mas a imagem que guardamos é a que nos permite agora dissertar, ou tão só discorrer de forma ligeira e distante, mas com paixão - ressalvo. Sei bem quantos se vão mandar ao ar, pelo caminho e o jeito que escolhi para falar sobre eles - os Bombeiros. Os rapazes crescidos que conheci, pobres, rotos, são os mesmos homens tão pobres hoje que  quando meninos, e com os mesmos anseios e razões que os rapazes pobres, mais bem vestidos hoje têm, que é  a de ser bombeiro, apesar da forte concorrencia da GNR (- nesta Corporação o estatuto e o clarim toca mais alto e rima com pilim-). Rapazes pouco dados ás letras, mas muito agarrados aos copos, e que viam como promoção social, maior subida na vida, uma importância e auto - estima acrescida, se calhasse entrarem na Corporação que era a única com alguma visibilidade e espectacularidade na terra natal, e que ainda por cima lhes permitia exibir uma indumentária vistosa e reluzente que não tinham de outra maneira. Mas ao pobre, qualquer roupita, assenta-lhe de modo estranho que não lhe tapa a sua origem fria, e uma farda com botões em metal dourado sempre disfarça um bocado. Mistério! É isso mesmo, é mistério, e não há volta a dar. Até que ponto se pode falar destes soldados voluntários e da boa vontade, sem penetrar naquilo que deverá ser a sua real vocação e objectivo que é o sentido mais profundo - o humanitarismo , a entre-ajuda, a disponibilidade, a prontidão e eficácia, a sua constante preparação para enfrentar perigos e a guerra entre chamas por vales e montes, por caminhos do demo e de cabras, e outras loucuras que o homem carrega e a doença revela, desenvolve e clama e se expressa ás vezes cruelmente?

Recordo o circo que montavam em alguns locais da cidade, naqueles que ao Comando lhe  parecia ser um obstáculo ideal para o exercício que se queria ultrapassar e lhes permitia adquirir experiencia, já que coragem nunca faltava, que lhes vinha da vontade sonhada e de algum alcool á mistura, que não raramente dava lugar a cenas caricatas, hilariantes, e promoviam a risota entre a assistencia curiosa e expectante. Mas quando a sirene ecoava pela terra notas soltas, estridentes, ou mais abafadas chegavam aos arredores mais próximos, os pobres bombeiros quer estivessem nos telhados, a trabalhar nas valas ou no buraco em que estavam metidos, nas oficinas, no campo ou na taberna a jogar á bisca, lá corriam como desalmados numa urgência em direcção ao quartel, e aí maltrapilhavam-se a rigor e se abotoavam pelo caminho até que as vestes dissessem, "pronto"! E depois era ver os carros de combate ou como se dizia, bombas de incêndio, a todo o gaz a badalarem á passagem para que todo o mundo abrisse espaço e lhes corrigisse a direcção tomada porque muitas vezes iam para norte e o incêndio era para sul. Ainda não se sonhava com o GPS -  um problema de direcção portanto. Então quem os comandava, quem os dirigia? Que preparação tinha o Comando nomeado, que formação tinha a Direcção assumida para o exercício de tal função? Respondemos nós, que para além da militar que um ou outro, este ou aquele assimilou porque enfileirou na tropa macaca ou por hereditariedade, nenhuma outra lhes foi dada. O voluntariado garboso era a única força que os movia e o exibicionismo apelava, coisas que os desfiles pelas ruas denunciavam em dias de procissão ou de festa a preceito. Nada mudou de então para cá? Sim, mudaram os equipamentos através das boas verbas concedidas, todos os meios de apoio material actualizado, instalações melhoradas, maior poder reivindicativo, luta interna por posição de destaque, maior protagonismo cerimonial e oficial, etc. e até bombeiras já há, que se levantam e se deitam para amaciar as labaredas dos fogos que sobem em qualquer frente ou á rectaguarda ou num colega mais carenciado e que faz parte de toda aquela fanfarra onde tambem se misturam elementos que ateiam fogos de verdade, mas onde tambem há os do Corpo de Intervenção, os das chamas na floresta e dos acidentes nas estradas, nas derrocadas e na condução dos doentes, e nas aparições para corpo presente! Será que esta amalgama de homens são hoje idênticos aos que conheci e recordo, ou estão como se exige mais filtrados, aptos para melhor serviço, prontos para as novas oportunidades que se lhes abriram por (in)formação ou decreto, capazes de nos transmitirem uma nova imagem que apague o registo que a nossa memória teima em manter? Será que charlot se inspiraria hoje neles para criar um "boneco" com humor e algum sarcasmo, com o humanismo sempre presente mas sarcástico sempre? Em tempos modernos presumo que tal projecto não tinha lugar e muito menos aceitação, pois os bombeiros de agora são conscientes homens que pouco se assemelham com os pobres mal fardados de machado á cintura que eu conheci e que tinham o quartel como casa de abrigo com pão e bagaço, e por isso hoje mais Bombeiros Humanitários, embora mandem a factura a casa por cada serviço prestado no momento de urgência ao mais indigente - fantasia nossa mais uma vez, é claro!Heróis á sua medida, corajosos quanto baste e mais abnegnados do que nós outros e os demais, a eles devemos reconhecimento e total gratidão.

Joaquim Moura - Penafiel

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