terça-feira, 20 de abril de 2010

Candidatura a Autarca Modelo


         (Ser Autarca não é uma ambição minha,

 é a minha maneira de vos servir)

(adpt)



Estou decidido. As solicitações são muitas. O telefone não pára de tocar, os apelos não cessam e por isso sinto-me na obrigação de corresponder às assinaturas recolhidas e às súplicas escutadas. Não posso virar costas à missão que me querem a desempenhar. Os sinais e as mensagens que chegam lembram-me que o Povo é quem mais ordena. Desconfio que possuo todos os requisitos para assumir as funções de Autarca se eleito evidentemente. Tenho a idade recomendada, o juízo suficiente e a popularidade demagógica que for necessária apresentar. Danço com o Povo se ele exigir, à peixeira dou-lhe um abraço e um apalpão se ela deixar e achar graça, um beijo à criança de colo mesmo ranhosa enquanto troco um olhar com a sua mãe se ela for vistosa, um aperto de mão ao transeunte anónimo e ao comerciante à porta enquanto espera cliente e vê a banda passar. Ofereço brindes a este e àquele a torto e a direito e distribuo promessas aos molhos. O meu curriculum não é mau. Não sou doutor de coisa nenhuma, à semelhança dos eleitos tradicionais e em função, embora estes assinem como tal. O meu ‘’dêerre’’tem a mesma origem, é privado e dele abuso mesmo não sendo legítimo fazê-lo – o Povo há-de habituar-se mais campanha menos dia.  O Sócrates e um ou outro companheiro de estrada são exemplo disso. No meu caso, resulta melhor já que eu tenho carisma e o verbo adequado à figura. Fico bem nas fotografias o que garante um belo cartaz de propaganda. A minha capacidade de falar com todos é evidente e de os negar no momento seguinte também. Fazer de conta que não os conheço de parte alguma é normal quando conveniente. O meu gabinete todavia estará sempre disponível para receber todos principalmente quando forem portadores de ‘’perfume’’ que dê para untar as mãos e construir casa com piscina e jacuzzi. Não tenho feitio para aceitar carros abaixo do valor que qualquer sucateiro é capaz de oferecer. Trabalho e viajo em alta rotação, tenho filhos para sustentar e preparar para me suceder no comando dos destinos do executivo que é o que está a dar, e mulher para fazer feliz não vá o Diabo tecê-las. Estou receptivo para aceitar as propostas de apoio de qualquer partido da área do Poder desde que dê o seu aval a estes desejos tão banais de tão sabidos e constatados por todos. Tenho a experiência de governação no Burkina Fasso, Uganda, Iémen e outros países que constituem o eixo do mal. Quaisquer apoios que respeitem estes pressupostos programáticos devem ser enviados para a sede instalada na Rua Passos Rabbit de modo sigiloso não vá um opositor ter prévio conhecimento e apresentar o seu programa revisto e aumentado com requintes de corrupção mais refinados. Tenho resposta pronta para tudo e todos, sou fiel q.b. desde que o séquito que me rodeia não mije fora do penico. Garanto expurgar o staff que não me convém instalado pelo antecessor e substituí-los pelos meus apoiantes. Acto normal que não vai ao arrepio do que é habitual fazer-se numa Autarquia que se preza. Prometo desde já que serei um vulcão a governar, lançarei nuvens espessas e complexas de tal modo que ninguém verá as minhas falcatruas. A minha acção assentará ainda no exemplo e dinâmica que outros autarcas exibiram com tão bons resultados. Prestarei contas de todos os ‘’isaltinos planos’’, dos ‘’valentins projectos’’, das ‘’fátimas generosidades’’ e das ‘’cardosianas permutas’’ que venha a realizar. Abrirei concurso a propostas de entrega de ‘’luvas e cunhas’’ que se queiram alinhar com discrição e substância.

Para todo e qualquer assunto relacionado com estas confissões devem os interessados tratar com a minha secretária pessoal que tem umas pernas robustas, gracioso recorte e decote generoso do género ‘’boa como o milho’’. Atende com simpatia fora do expediente normal e por isso já foi promovida vezes sem conta. Acredito que atendimento assim rende votos e nisso aposto, bem como na restante equipa obedientemente colaboradora. O Povo é que paga enquanto nós pimba. Vida difícil a de autarca quantas vezes incompreendida mas bastante compensadora e que agora nos reclama. Viva o 25 de Abril!



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