quinta-feira, 7 de abril de 2011

Conversa adiada


Um rapaz amigo com idade que ainda não lhe permitia ser doutor, não obstante carregar debaixo do braço quatro grossos volumes, entrou pela minha oficina dentro e com habitual confiança que sabia poder usar e só depois de dizer bom dia, atirou – ‘’Ò sr. Abílio (nome fictício) diga-me lá, que eu ando a cismar no sismo (ele sabe que gosto do trocadilho), você que sabe umas coisas, se o que aconteceu no Haiti tivesse ocorrido por cá, crê você que estaríamos prontos a responder a idêntico drama com meios mais eficazes? A pergunta é mais curta do que a resposta que merece, e por isso fiz de conta que não ouvi bem mas foi só para ganhar tempo para reflectir sobre ela. Respondi-lhe ou tentei apanhar o melhor jeito para uma possível e clara explicação. – ‘‘Sabes, por Portugal a que te referes, suponho, tudo é bom desde que não aconteça, caso contrário estamos feitos. Vê lá tu que basta a época dos fogos florestais para incendiar os ânimos e alvoroçar as chefias do organismos responsáveis e a confusão é mais que muita. Ou são os Bombeiros que não chegam, ou que não têm equipamento adequado a que se lhes junta a crónica falta de água, os helicópteros que estão em terra inoperantes, a limpeza das matas que não é feita, os acessos difíceis, etc. No inverno, como sabes, há zonas do país aonde a neve cai e como sabes também a neve é macia e leve como algodão doce, que mesmo que nos caia em cima não mata. Mas basta meia dúzia de flocos para obstruir as vias que logo nos chega a notícia que não há máquinas que os removam. A partir daqui já ninguém se entende. Ou é o autarca que se ausentou para o carnaval tropical ou para uma feira de fumeiro lá nas redondezas e os bombeiros desconheciam. Ou é o governador civil que está incontactável e quando aparece é de fato e gravata. Não estás a imaginar o gabinete oficial deste representante equipado com protecção adequada de capacete e galochas e ele de piquete às portas dos incêndios ou das inundações. Como sabes eles aparecem no fim prontos para o discurso que leva à recolha dos louros’’.
O jovem mantinha-se atento às minhas reflexões que denunciavam a experiência do tempo vivido e ao mesmo tempo ele dizia – continue. E continuei. ‘’vou-te lembrar ainda as cheias provocados pelos riachos e ribeiros, o lixo que se mistura porque todos sujam e ninguém limpa, os castelos, as muralhas e as fortalezas desmoronadas que desabam à séculos e cujas pedras que lhes pertencem já entraram na construção dos muros das vivendas dos autarcas ou empreiteiros locais.’’
Até aqui o rapaz não tinha interrompido até que – ‘’ Ò sr. Abílio (nome fictício), mas olhe que se nós não somos lestos a construir, também a deitar abaixo (no que somos bons, juntei eu) não resolvemos melhor. Veja só o que se passa com o ‘’prédio Coutinho’’ ali no Minho, que não há terramoto que o deite por terra. Mas aí, disse eu, passa pelas leis dos tribunais o que torna tudo diferente. Agora o que tu queres saber é sobre a nossa capacidade de resposta às catástrofes por cá. Digo-te que não temos meios nem gente capaz. Olha só que sem nos calhar nada parecido com o caos e a miséria do povo caribenho, atenta na fome que graça entre nós. Queres inferno maior do que este só mesmo o que aconteceu naquela ilha que não lhe vale ter por vizinho o país mais rico do mundo mas também desigual quanto baste. Se por lá, pelo Haiti, que não há petróleo nem diamantes e floresta sequer, demora a ajuda e vai demorar, para lá dos meus dias, por cá que é o que queres saber não seria melhor. Ainda por cima o vizinho da fronteira que nos separa não está tão próspero como seria desejável e a ajuda vinda seria a possível. Aqui também não há petróleo como disse aquele dirigente desportivo. E se não havia para ele, para nós muito menos. Como vês, não precisamos de factores naturais para deitar tudo abaixo. Portugal está visto é um país histórico desde há muito e se nos acontecesse uma tragédia semelhante só te digo que tínhamos o inferno a dobrar. Nós somos velhos sobreviventes a catástrofes. Tal como a esses infelizes ilhéus o nosso futuro está também adiado até que a terra nos cubra. Portugal tem muitos górgonas com vocação para Baby Doc que não deixa pedra sobre pedra e por isso este país deu em pedreira. Nisso o nosso vizinho de fronteira é melhor que nós. Como em tudo, disse ele intervindo. Em tudo não, retorqui. Em paleio nós somos bons’’ – e isto podia ter sido dito por qualquer um. ‘’ Mas isto é como tudo, ossos da vida meu caro - Diga antes ‘’destrossos’’ da vida. (eu percebi o trocadilho)
- É, tens razão. No caso estás certo.
Ao rapaz em silêncio já baralhado pelo barulho que as palavras fazem, principalmente as inadequadas, perguntei-lhe se estava cansado e se queria pousar os livros, aonde não está registado este conhecimento que só a vida de muitos anos dá enquanto eu procurava rematar ou concluir o desafio que ele lançou quando aqui entrou e de maneira a que ele saísse confortado com a minha dissertação e apropriada à sua idade que não dava espaço para apreensões nem convinha.
- O que andas a ler, perguntei?
- Neste momento estou com a ‘’Escrava de corda ao pescoço’’ a que se seguirá a ‘’Escrava na corda bamba’.
- E que tal?
- São como a neve e o algodão, macios e leves.
- E essa escrava quem é?
-  É Portugal -  respondeu seco.
Mas como já se fazia tarde, ele disse: Então até logo, enquanto pegava nos livros.
- Já vais?
-  Eu volto. Depois continuamos.
Ele despedia-se e eu voltava também a tentar meter o tempo certo no relógio que uma cliente deixou para arranjo. O tempo tinha parado dentro dele. Deve ser da pilha…deve ser!

terça-feira, 5 de abril de 2011

A "sueca"


A vida está difícil. Não está para brincadeiras, está mesmo pela hora da morte. As expressões  bem escutadas, porque repetidas de tão sentidas, são diversas, e no entanto dizem todas o mesmo. Todos os passos que se dão para fora de casa saiem-nos caros. Os “tostões” contam-se , recontam-se, e sente-se o engasgue que nos revolta. A raiva cresce por não sabermos como dar a volta a esta situação. O melhor, é esquecer  os momentos de gozo que o passado nos proporcionou, e juntarmos-nos à sueca debaixo do arvoredo, no banco do jardim, no largo da feira, na praça pública que já foi mercado, e não pensar mais na confusão actual, no lamaçal que nos meteram, que nos angustia e de que não somos capazes de saír, sem ser através de nos manterem na penúria, esmagados pela frustração e espremidos pela tristeza. Somos velhos de tenra idade que vagueiam num túnel curvado e cheio de sombras, tantas quantas as promessas que nos fazem, dizem uns, estamos velhos e já não há muito para andar, dizem outros. Por isso estes bancos de ripas gastas, retorcidas, descascadas, ao ar livre servem para passar o tempo e uma sueca vem mesmo a calhar. Quatro tristes e um som de violino dispostos em cruz chegam para fazer a festa até que a tarde se esgote e a hora do caldo apareça a fazer de ceia. Acabaram-se os gastos nos pequenos prazeres que nos acompanharam desde cedo. Já não há idas ao cinema, jornais, nem cavaqueiras nos cafés com uma “bica” à mistura. Discute-se a bola mais pelo que se ouve do que pelo que se vê. Os canais cabo são para os ricos, e nos estádios não há lugar para nós porque a carteira de bolso está fora de jogo. Um baralho de cartas sempre é mais barato, e a companhia dos amigos no infortúnio ainda não paga imposto. Basta a sua disponibilidade, que se agradece, enquanto ajuda e alivia “o caco”, que é em cacos que o país está feito e nós também. Agora só há pachorra para a “bisca lambida” e a seco, que mesmo a água em garrafa custa como combustível fóssil, só trazida da torneira da casa, que ainda não foi cortada, que a luz já a dispensamos há muito e aqui com Sol também não é precisa. Vê-se bem o naipe de trunfo que corta o amargo que sentimos e nos obriga a assistir, senão, somos penalizadoa com quatro jogos, embora perder é coisa a que estamos habituados. Quatro, são quantos são precisos para uma partida bem entretida debaixo do arvoredo, á sua sombra, entre palavras que tentam disfarçar a melancolia que nos cerca, quase sufoca. O ar está ameno, não é do ar este aperto na garganta, e gravata não uso. O transistor a pilhas avisa-nos que estão vinte e quatro graus. Suportável. Esta vida é que já não tanto. A sueca a este preço é que se aguenta ainda, mesmo a precisarmos de baralho novo que este está muito coçado como colarinhos gastos e fora de moda, e acossados nós também, mas não podemos fazer nada a não ser levantarmos-nos de novo sobre quem nos exauriu a vida, a esperança  e o sonho de ter um final feliz, mais descansado, e expulsá-los a todos, privá-los do saque continuado e fazê-los pagar bem caro por isso. Não sei se temos energia para tal cometimento. Vontade não falta. Bom! Faz-se tarde e ainda tenho que ir ter com a Ingrid, que pediu-me a acompanhasse à Segurança social. Bela mulher. A beleza nórdica é o que nos vai valendo, mas tal como nós deve ter saudades do cinema. Retirou-se. Ainda tentou de novo a sua inserção, mas sem rendimento, e como nós vive agora do rendimento mínimo. A vida não está fácil para ninguém.Esta é a última que jogo. Eu volto mais tarde e continuamos se estiverem por aí, se ainda houver luz e algum futuro.