- O comboio do costume, segue pelo trilho acordado,
trepidante e gasto. Há um ambiente ainda pesado do mofo e do suor da véspera. De
um ar quase rural, quase triste. Ninguém morreu, mas na carruagem, há flores e
meninos a chorar. Rasgam o silêncio das sombras que entram de fora. É manhã
cedo. As palavras isoladas erguem-se ao fundo, arrastam-se, e chegam apertadas
no espaço até ao último assento, onde os olhos são a mais viva expressão em
movimento. Onde o ouvido, cada vez mais despertado, e agora interessado, parece
querer forçar amizade com as conversas de ocasião. De repente soa um apito. No
percurso há mais uma estação. Paragem. O comboio detém-se nos carris. Os dedos
percorrem a boca, e as unhas são roídas. Os viajantes agora falam e ouvem-se
mais alto. Trocam impressões sobre saúde alguma, do trabalho pouco, e do tempo
que faz, no itinerário que não obedece ao horário. Olham ou perguntam com
propósito de gume, as horas comprometidas. Mas o relógio, bem visível, move-se
e consome segundos lentos. O comboio é que está parado há minutos longos. As
carruagens vão cheias de sono perturbado. De vez em quando, escapa-se por uma
janela entreaberta, o ressonar de alguém. O menino que arde em febre, sossega,
já não chora e volta a dormir no colo suave da mãe tensa, com uma rosa vermelha
na mão dos afagos de veludo. Talvez hoje haja consulta, e depois, mas só
depois, se fará o regresso!
*
*-(publidº hoje23.03/Destak e Público)
-(quinzº Imediato.29.03.018)
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