O meu filho anda a estudar para desempregado. Quer teimosamente ser
arquitecto. Não sabe que este país não é para arquitectos e não escutou
atentamente o último laureado com o prémio maior da especialidade, que o
confirmou e aproveitou para aconselhar os pretendentes à licenciatura, os
futuros arquitectos à rasca, responsáveis por tornar as cidades lindas e dar sentido
ao olhar, para se porem a andar daqui para bem longe, que a crise anda por cá e
nas imediações europeias e sem perspectiva de melhores dias. O meu filho
enquanto "marra" cheio de vontade para alcançar o canudo nessa arte
superior, vai-se entretendo a projectar e a "maquetizar" sobre o
tampo da mesa de jantar casinhas em cartão, com luzinhas de natal por dentro.
Ele que projectava também ganhar um dia o prémio Pritzker. " Parabéns
Souto Moura. Ganhaste a maior flor do Mundo,a partir de um país aonde as flores
não nascem".
terça-feira, 29 de março de 2011
sexta-feira, 18 de março de 2011
Os bombeiros
" na guerra, determinação
na derrota, resistência,
na vitória, magnanimidade,
na paz, boa vontade" (Winston Churchil)
A imagem que ainda se retem ou perdura desta Corporação e dos homens
estranhamente voluntários que a constituem, ou seja, dos seus elementos tambem
chamados de soldados da paz, julgo que é reflexo daquela que nos vem da
infância, da idade em que se quer ser com igual fantasia, polìcia, e nos dias
de hoje jogador de futebol. Corporação nada exigente, com recrutamento pouco escrupuloso,
misturando-se um, exemplar, a outro, com registo comportamental pouco
recomendável, que transitou expulso ou "aconselhado" à reforma compulsiva no último ofício exercido, por
simples antecipação à suspensão possível, ou ainda para ocupação dos tempos
livres a troco de algum que dê para uma merenda reforçada. Mas a imagem que
guardamos é a que nos permite agora dissertar, ou tão só discorrer de forma
ligeira e distante, mas com paixão - ressalvo. Sei bem quantos se vão mandar ao
ar, pelo caminho e o jeito que escolhi para falar sobre eles - os Bombeiros. Os
rapazes crescidos que conheci, pobres, rotos, são os mesmos homens tão pobres
hoje que quando meninos, e com os mesmos
anseios e razões que os rapazes pobres, mais bem vestidos hoje têm, que é a de ser bombeiro, apesar da forte
concorrencia da GNR (- nesta Corporação o estatuto e o clarim toca mais alto e
rima com pilim-). Rapazes pouco dados ás letras, mas muito agarrados aos copos,
e que viam como promoção social, maior subida na vida, uma importância e auto -
estima acrescida, se calhasse entrarem na Corporação que era a única com alguma
visibilidade e espectacularidade na terra natal, e que ainda por cima lhes
permitia exibir uma indumentária vistosa e reluzente que não tinham de outra
maneira. Mas ao pobre, qualquer roupita, assenta-lhe de modo estranho que não
lhe tapa a sua origem fria, e uma farda com botões em metal dourado sempre
disfarça um bocado. Mistério! É isso mesmo, é mistério, e não há volta a dar.
Até que ponto se pode falar destes soldados voluntários e da boa vontade, sem
penetrar naquilo que deverá ser a sua real vocação e objectivo que é o sentido
mais profundo - o humanitarismo , a entre-ajuda, a disponibilidade, a prontidão
e eficácia, a sua constante preparação para enfrentar perigos e a guerra entre
chamas por vales e montes, por caminhos do demo e de cabras, e outras loucuras
que o homem carrega e a doença revela, desenvolve e clama e se expressa ás
vezes cruelmente?
Recordo o circo que montavam em alguns locais da cidade, naqueles que ao
Comando lhe parecia ser um obstáculo
ideal para o exercício que se queria ultrapassar e lhes permitia adquirir experiencia,
já que coragem nunca faltava, que lhes vinha da vontade sonhada e de algum
alcool á mistura, que não raramente dava lugar a cenas caricatas, hilariantes,
e promoviam a risota entre a assistencia curiosa e expectante. Mas quando a
sirene ecoava pela terra notas soltas, estridentes, ou mais abafadas chegavam
aos arredores mais próximos, os pobres bombeiros quer estivessem nos telhados,
a trabalhar nas valas ou no buraco em que estavam metidos, nas oficinas, no
campo ou na taberna a jogar á bisca, lá corriam como desalmados numa urgência
em direcção ao quartel, e aí maltrapilhavam-se a rigor e se abotoavam pelo
caminho até que as vestes dissessem, "pronto"! E depois era ver os
carros de combate ou como se dizia, bombas de incêndio, a todo o gaz a badalarem
á passagem para que todo o mundo abrisse espaço e lhes corrigisse a direcção
tomada porque muitas vezes iam para norte e o incêndio era para sul. Ainda não
se sonhava com o GPS - um problema de
direcção portanto. Então quem os comandava, quem os dirigia? Que preparação
tinha o Comando nomeado, que formação tinha a Direcção assumida para o
exercício de tal função? Respondemos nós, que para além da militar que um ou
outro, este ou aquele assimilou porque enfileirou na tropa macaca ou por
hereditariedade, nenhuma outra lhes foi dada. O voluntariado garboso era a
única força que os movia e o exibicionismo apelava, coisas que os desfiles
pelas ruas denunciavam em dias de procissão ou de festa a preceito. Nada mudou
de então para cá? Sim, mudaram os equipamentos através das boas verbas
concedidas, todos os meios de apoio material actualizado, instalações
melhoradas, maior poder reivindicativo, luta interna por posição de destaque,
maior protagonismo cerimonial e oficial, etc. e até bombeiras já há, que se levantam
e se deitam para amaciar as labaredas dos fogos que sobem em qualquer frente ou
á rectaguarda ou num colega mais carenciado e que faz parte de toda aquela
fanfarra onde tambem se misturam elementos que ateiam fogos de verdade, mas
onde tambem há os do Corpo de Intervenção, os das chamas na floresta e dos
acidentes nas estradas, nas derrocadas e na condução dos doentes, e nas
aparições para corpo presente! Será que esta amalgama de homens são hoje
idênticos aos que conheci e recordo, ou estão como se exige mais filtrados,
aptos para melhor serviço, prontos para as novas oportunidades que se lhes
abriram por (in)formação ou decreto, capazes de nos transmitirem uma nova
imagem que apague o registo que a nossa memória teima em manter? Será que
charlot se inspiraria hoje neles para criar um "boneco" com humor e
algum sarcasmo, com o humanismo sempre presente mas sarcástico sempre? Em
tempos modernos presumo que tal projecto não tinha lugar e muito menos
aceitação, pois os bombeiros de agora são conscientes homens que pouco se
assemelham com os pobres mal fardados de machado á cintura que eu conheci e que
tinham o quartel como casa de abrigo com pão e bagaço, e por isso hoje mais
Bombeiros Humanitários, embora mandem a factura a casa por cada serviço prestado
no momento de urgência ao mais indigente - fantasia nossa mais uma vez, é
claro!Heróis á sua medida, corajosos quanto baste e mais abnegnados do que nós
outros e os demais, a eles devemos reconhecimento e total gratidão.
Joaquim Moura - Penafiel
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