A maior parte dos portugueses, não gozam férias. Não porque não as desejam, mas apenas por impossibilidade de reunir as condições que permitem tê-las. Podem fazer de conta que beneficiam de tempos livres e calmos. Encher os dias vazios, com feriados e festas. Mas soa-lhes e sentem-nos sempre como feridas difíceis de aceitar e curar. Sombras não lhes faltam. A da árvore do jardim, que aguenta o pássaro, sacode o vento, e faz gemer o banco aonde repousam o sono e o olhar. Espreitam por entre as folhas e as ripas da vida, as farpas do salário roto com cheiro a mofo, de tão velho, que prendem no bolso da camisa gasta. Os dias com sol de alegria e de prazer, ficam longe. Aqui não chega o pó da areia brilhante e do sal. Estão para além do sonho e do mar. São dias feitos de tempo, caros, e doutras paragens com paisagens de pintor. Para lá chegar-lhes, é sempre preciso mais do que vontade e génio. É necessário, saúde e uma conta aberta que o trabalho incerto e mal pago, não permitiu pela vida fora, uma poupança, capaz de dela tirar agora, alguma felicidade. Hoje os dias são de sombra com uma luz entrecortada pelas folhas, quando abanam sobre as nossas cabeças, carregadas de pensamentos desiludidos. Aqui sentados, só nos resta ver passar os que partem esbranquiçados, a substituir os que chegam bronzeados. Ainda há os comboios sonolentos que restam. Erguendo o olhar podemos ter a sorte de ver um avião, a riscar o céu, deixando um rasto de fumo branco, que se apaga como o nosso desejo, ao fim de pouco tempo. É nesses momentos que percebemos que a ilusão existe. Vivam-na quem puder. Eu regresso à bisca lambida e sem trunfos para puxar e ganhar aos meus parceiros, também eles perdedores viciados, nesta mesa de pedra dura e quase sempre, fria!
quinta-feira, 30 de agosto de 2018
segunda-feira, 27 de agosto de 2018
A escarpa da Arrábida
Não. Não vou escrever sobre a Selminho do Moreira, presidente da C.MPorto, mas da construção de dois prédios, noutra escarpa, na Arrábida, em que ele é especialista a aprovar projectos de construção polémicos, que põe os nervos em franja dos portuenses. Talvez o presidente da autarquia tenha treino bastante, para tais polémicas, devido à sua proximidade com o clube maior e mais tripeiro do norte, e daí decorra a sua disponibilidade e preparação, para dar o seu aval ao licenciamento de um hotel e um edifício de boas dimensões, mas de princípios e regras urbanísticas deploráveis, que chocam os residentes. Pelo menos os que gostam de ver as pontes sobre o rio Douro à solta, a correr, e não esmagado e abafado entre margens, pelo betão. O projecto, ao que parece já não tem volta a dar, e os protestos e movimentos organizados de cidadãos e da população que se lhe opõe, já não vão a tempo de fazer mossa e travar tal desígnio, mas pelos menos têm o condão de gritar e fazer ouvir a sua condenação. A polémica instalada remonta há menos tempo que a do prédio Coutinho em Viana do Castelo. Mas se o edifício no Minho ainda está de pé, e nem para o deitar abaixo há homens com os instrumentos no sítio, já na escarpa da Arrábida, a coisa vai mesmo por-se em pé, haja o que houver, e goste quem gostar. Em Portugal, quando se entra para governar qualquer pedacinho de terra, sai-se mais rico, do que quando se entra. Assim vai Moreira e os seus sequazes, que se agarram à mira do lucro que a especulação e o lugar que ocupam, permitem. Haja pedra partida que já só falta assentá-la no sítio aprovado e violador da paisagem já pouco oxigenada; *
(publ.tb.in PÚBLICO.29-08)
segunda-feira, 20 de agosto de 2018
Más que una Leyenda
Não há palavras para descrever Lionel Messi. Não basta ver um só Jogo de Futebol na La Liga. Não é suficiente assistir a uma participação sua na super equipa do Barça, ou até na sua Argentina a espaços. É necessário acompanhar as suas intervenções sempre que ele empresta o seu génio imenso, em cada partida que disputa. Porém, as suas prestações são de tal modo fabulosas, que se a alguém lhe escapar um jogo, terá sempre a oportunidade de se maravilhar com ele no jogo seguinte, já que ele repete com galáctico brilho a exibição que encantou o mundo, no anterior. Ele é uma máquina perfeita e impossível de imitar nem assemelhar. Mesmo não fazendo golos, que é o que define e só, outros, que praticam igual modalidade e se revelam apenas por isso e caso os façam, Messi é o maior e melhor de todos os tempos. Vê-lo a recolher a bola, correr com ela, passá-la aos que o acompanham e lhe seguem toda a dinâmica, o movimento, que ele impõem numa disputa, numa partida de futebol, é um privilégio para os que vivem nesta Era, e neste planeta. É juntar à história de vida individual, uma coexistência com o sobrenatural que dele irradia e nos encanta como se coisa por Deus criada. Enquanto uns atletas apagam-se se não marcarem golos, e deles pouco se fala, como se essa contabilidade fosse a mais importante para alguns comentadores toscos mas empenhados na construção de narrativas chochas, a Messi basta encher os estádios com a sua incomparável magia e deixar-nos a sonhar junto dos anjos no céu mais fantasioso. Quem viu, a sua encantadora exibição em Camp Nou contra um adversário bafejado pela sorte e beneficiário da ineficácia de alguns companheiros de equipa, não mais dispensará voltar e a suspirar, por voltar a vê-lo com a bola nos pés, que obedecem ao génio mais impossível de igualar. Ele está em La Liga, no Barcelona, aonde se cria o mais belo futebol . A ele se deve o golo 6000 histórico, assinalado no placard luminoso, na La Liga para o Barça. Não em Turim, no Calcio, aonde impera a máfia dos negócios. Lio Messi é único, e não há mais palavras para o qualificar, nem recorrendo à mítica Babel
*-(hoje no DN.madª)
sexta-feira, 17 de agosto de 2018
A Web sans Marine
- Portugal não é uma Democracia plena. Demonstra até ter medo de o poder ser. Duvida que o seja e reage insensatamente. À mínima pressão de uns demagógicos filósofos da treta, que se arvoram por vezes, intelectuais e donos de valores superiores, toma, ainda que disfarçadamente, posição sobre a liberdade de expressão e de participação, sem o dever e direito de se assumir independente, e sujeita-se apenas à pressão dos teimosos palermas mas crentes de certezas. Marine Le Pen, a francesa truculenta e senhora de um discurso com pecado e polémica mensagem, mas detentora de 10 milhões de apoiantes no país de Victor Hugo e de Sartre, foi proibida de entrar em Portugal para participar na Web Summit, evento pago pelos contribuintes, a um também estrangeiro desconhecido, para por de pé tal espectáculo com variedades, e a terminar num repasto, mais ou menos "panteónico". Que liberdade e que força é esta, "companheiros revolucionários do caviar", que temem a presença de uma mulher, que luta pelos seus ideais, que não sendo ao gosto das correntes dominantes e instaladas no poder, impõem-lhe a proibição de estar presente e após convite, numa cimeira futurista, agora demonstrativa, de nível censório? Que democratas são estes que chamam a si a razão e a verdade, únicas, que oficialmente fazem carreira nos lobbys e administrações, partidos e governações, como possuidores de teorias e práticas salvíficas dos povos que manipulam? Qual a razão de fundo, e clara explicação, que faz assustar e enegrecer, silenciar até um governo dito soberano, mandando uma dirigente política com projecção internacional para o "apartheid" das forças malignas, sem que haja qualquer prova, a tão escorraçada senhora, a visível loira Marine? Por que não a combatem na sua presença, olhos nos olhos, palavra a palavra, e a desmontam e lhe apagam o brilho que possa cegar, no palco da Web Summit? Que democracia esta, que nos querem impor, como se fosse a mais sã e aquela que aproveita mais a todos, mas cujos resultados nestas décadas desde aquele maio de 68, são apenas e só de "chercher travaille autour du monde avec ou sans la femme". Infelizmente!*
-*(hoje no Púbcº-crtdº)
terça-feira, 14 de agosto de 2018
A horta da gata
- a minha horta
ali junto à porta;
mesmo à mão de semear,
nasce da terra e da água
que a enxada conforta,
e sabe tratar;
- algum mistério,
pouco de dor,
numa semente que engravida;
desfaz-se num sério
amor,
que resulta em pão,
alimento e vida,
colhido com suor;
- e por entre os sulcos
rasgados sob o céu,
a minha fiel "chinha"
acompanha-me com seu miar,
feliz por tudo ver,
a crescer,
verde em seu redor!
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